Hoje é dia do Ambiente e pela manhã deparei-me com esta notícia nos jornais:

“Uma dieta vegan, é provavelmente o melhor caminho para reduzir o nosso impacto no planeta”  Joseph Poore, University of Oxford, UK

” Dada a crise global da obesidade, mudar a dieta, tem o potencial de nos tornar a nós, e ao planeta, mais saudáveis ”. Prof Tim Benton, at the University of Leeds, UK

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O novo estudo, publicado na revista Science, é uma das análises mais abrangentes até à data e revela que retirar a carne e os lacticínios da dieta podia reduzir a pegada de carbono de um indivíduo até 73%. Reduziria também a área mundial cultivada em 75% e ainda assim alimentaria o mundo inteiro.

“Realmente são os produtos animais que são os maiores responsáveis (pela extinção das espécies e poluição do planeta). Evitar o consumo de produtos de origem animal traz benefícios ambientais muito melhores do que tentar comprar carnes e laticínios sustentáveis, e é muito maior do que evitar as viagens ou comprar um carro elétrico”

A pesquisa da equipa de Joseph Poore é o resultado de um projeto de cinco anos de duração, que inicialmente começou como uma investigação sobre a produção sustentável de carne e laticínios.

O cientista parou de comer produtos de origem animal após o primeiro ano de estudo…

Por aqui não comemos carne, nem peixe, nem lacticínios, nem ovos. Nada de origem animal. Eu sou vegetariana há 18 anos e vegan há 2, o marido há 6 anos e os meninos desde a gestação.

E estamos saudáveis e de consciência tranquila. Pelos animais e pela nossa casa – o planeta Terra.

Deixo-vos aqui duas tabelas feitas por nós, com a ajuda de nutricionista, que vos podem ajudar a compôr as vossas refeições vegetarianas de forma saudável.
Imprimam, lembrem-se de variar o mais possível ao longo da semana e… bom apetite e boa consciência.

Espero que vos inspire na vossa jornada pela defesa do ambiente!

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Aconselho ainda que vejam o documentário Cowspiracy, para mais informações, e que se deliciem a encontrar receitas e muita, muita informação nutricional no blog Universo dos Alimentos.

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Que continuemos a Plantar Amor

Liana

(Quando aqui falar em televisão, quero dizer todos os ecrãs com entretenimento – televisão, computador, telemóveis e tablets.)

Então, em primeiro, calma. Nós temos telemóveis, computador e televisão. Raramente está ligada, mas temos.
Eu já fui viciada em cinema e continuo a adorar filmes e séries. E mais recentemente sou vidrada em documentários.
Mas os mais novos cá em casa… vivem muito bem sem televisão.

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Credits: Patrícia ResendeEnter a caption

Então vejamos como:
– até ao ano de idade, os meus filhos viram 0 televisão.
Sim, o número está correto. Zero.
Quantas vezes me fez falta? Muitas.
É seguramente mais difícil entreter uma criança, no caso duas, sem televisão.

Mas, e não é por ser obtusa, super protectora ou querer ser diferente, mas fi-lo porque li diversos estudos de pediatria que nos garantem que os bebés não estão preparados para ver televisão.

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Credits: Patrícia Resende

O que a televisão faz (e telemóveis e tablets também):

1- os estudos referem que os estímulos visuais são demasiados e muito acelerados para a capacidade dos cérebros dos pequeninos.

2- o uso de ecrãs antes dos 18 meses, pode provocar atraso na linguagem, na leitura e na capacidade de curta-memória.

3- relacionam a tão falada hiperactividade com o demasiado tempo atrás de um ecrã, visto que nos desenhos animados os estímulos são constantes, coloridos e vibrantes e a criança fica “viciada” nessa forma de ser/estar.

4- causa crianças mais passivas a nível de criatividade, imaginação e entusiasmo próprio e com mais falta de cooperação, interesse e atenção nos estudos.

5- Em grandes estudos na América e Reino Unido relacionam inclusivamente a obesidade infantil, a agressividade e alguns problemas sociais e emocionais à exposição elevada e demasiado cedo aos ecrãs.

6- Vicia.

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Credits: Patrícia Resende

O que a televisão (telemóvel e tablet) não deixa fazer:

Mais ainda, do que o que a televisão pode fazer é o que a televisão não deixa fazer, ou seja:

1-  naturalmente os ecrãs impedem o contacto humano. Justamente aquilo que é mais necessário a uma criança, para aprender a relacionar-se consigo, com os outros e com o mundo.

2- a televisão impede o tédio, e por isso a consequente busca de entretenimento, através da criatividade e da resolução dos seus próprios problemas e frustrações.

3- minoriza a vontade de estimular fisicamente o corpo e a descoberta da Natureza e seus elementos

4- a televisão, na maioria dos conteúdos apresentados, impede a empatia e a sensibilidade ao outro, uma vez que as imagens de violência nos desenhos são uma constante a que fica habituada.

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Credits: Patrícia Resende

E as razoes continuam…
Mas estas, foram mais que suficientes para mim, para até ao 1º ano cumprir à risca, a regra de “no TV”.

A partir daí confesso que me vali algumas vezes.  Mas ainda hoje, têm quase 3 anos e a televisão está confinada a 1h ou 2h aos sábados ou domingos de manhã ou a uma ocasião esporádica de gigantes birras (e zero paciência maternal).

Verdade seja dita, por não terem sido expostos a esta realidade, os meus filhos, gostando muito de ver televisão, passado 1h já estão levantados a procurar outra coisa para brincar. Também o telemóvel é uma realidade muito restrita, em que jogam 1 jogo, adequado e didactico, ainda menos que uma vez por semana.
Tablets não sabem o que é.

Sim, têm quase 3 anos e não, não vão ser infoexcluidos.  Vários estudos demonstram que a exposição mais tardia não invalida a falta de capacidades para mexeram em ecrãs nem a sua eficiência e rapidez em relação aos mesmos.

Nesta fase de vida, as crianças precisam de tocar, cheirar, sentir. Tudo é uma novidade e tudo, absolutamente tudo é um estímulo.
Precisam dos pais. Sobretudo e acima de qualquer referência, precisam dos pais.

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Credits: Patrícia Resende

A minha introdução aos ecrãs foi portanto, gradual. Inicialmente ligava o computador à televisão e punha-lhes videos nossos. Deles próprios, do nosso casamento, das festas de anos…  O ritmo era obviamente lento e real, as situações e as personagens conhecidas e isso fazia com que eles adorassem e não se sentissem perdidos entre a realidade e a ficção.  Também colocava ballet para crianças, do género do Quebra Nozes, ou concertos de música classica infantis, por ser algo muito mais focado na música e na dança, cheio de cor mas sem um ritmo alucinante.

Por último, quando introduzi os bonecos, foi ou com escolhas minhas no YouTube, ou, se com muita pressa minha, o Baby TV.
Por ser lento, e as histórias, mesmo que às vezes muito parvas, não conterem violência nem maus exemplos.

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Credits: Patrícia Resende

A verdade é que, por estarem tão expostos e atentos às nossas conversas, leituras e brincadeiras, eles têm um vocabulário muito extenso e uma conversa já muito bem fundamentada, para além, de que mesmo prematuros e com os percalços de saúde que tiveram, nada os impede de subir muros 🙂

Houve alturas em que lá tivemos de ouvir os habituais comentários dos “coitadinhos”.
Mas já nos habituámos aos coitadinhos que não têm gomas, carne, fritos, antibióticos, televisão, creche, brinquedos demais…
Claro, que depois quando os vêm felizes e saudáveis e com um desenvolvimento acima da média, sem nada destas coisas… acabam-se os comentários.

Hoje em dia, já são eles a procurar por eles próprios a sua diversão, basta-me dar-lhes algumas “ferramentas” e eles ajeitam-se, mas deixo aqui algumas imagens de como entretia os meus miúdos antes mesmo de eles andarem.

É incrível a surpresa de umas simples panelas ou tampas entreterem tanto…
Agora, mais crescidos, privilegiamos sempre os passeios e a brincadeira ao ar livre na Natureza.

Estas fotos podem ser abertas uma a uma e têm a descrição dos materiais.
Mas também nos podem procurar no seguinte link do Pinterest:
Actividades para bebés – PlantarAmor.com

Nós gostamos muito de televisão.
Mas sem a tornar, e aos telemóveis e tablets, em perigosos babysitters.
Preparados? Toca a pôr os miúdos a puxar pela mente e corpo.

Que continuemos a plantar amor.

Liana

O plástico tem sido um grande amigo. É fiável, práctico, simples e está em todo o lado.
E… aí reside um grave problema. O plástico esta e estará em todo o lado…
Durante os próximos milhares de anos.

A nossa dependência do plástico e a sua extrema longevidade tornaram um grande amigo no nosso pior inimigo.

Disseram-nos que devíamos reciclar. E agora sabe-se que não há capacidade de reciclar o tanto plástico que geramos, e que apenas 7% do plástico (sim, 7%) é verdadeiramente reutilizado.

O resto do plástico é muito bem empacotado e enviado para os países a que nós chamamos de 3º mundo. E aqui, gera-se mais um problema de gravidade extrema. Um abuso de direitos humanos com povos a viver literalmente em cima do lixo que nós fazemos.

A restante parte vai parar aos oceanos, aniquilando o ecossistema de que dependemos.

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A partir do momento em que percebemos que o plástico é um composto químico, extremamente prejudicial para o organismo humano e que devido ao excesso de poluição nos oceanos, está a começar a entrar na nossa cadeia alimentar através do sal, do peixe e da água engarrafada… humm, há uma luz de perigo, que se acende em nós, não há?

Um certo medo agiganta-se e a pergunta é óbvia.

“Então é melhor viver sem plástico?”

Foi isso a que nos propusémos na nossa família.
Para logo nos apercebemos que era bem mais difícil do que pensáramos.
Carro, televisão, telemóvel, máquina de lavar…
É tudo plástico.

Mas resolvemos começar por algum lado.
Pelo menos segundo a premissa:
Viver com muito menos plástico.
E passar a mensagem. Para que a pressão cresça e se apoie na sociedade para salvar os mares e… a nós próprios.

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Por onde podemos então começar?

Aqui por casa foi assim:

– Abolir palhinhas!
Sejamos francos, servem para quê, se não precisarmos delas por saúde?

– Abolir cotonetes e mudar para escovas de dentes de bambu! 

– Abolir sacos plásticos!
(Usar sacos de pano e frascos)

1- Para isto é preciso programar a mente para ter sempre sacos de pano ou de plástico reciclados para ir às compras, no carro, na mal, onde der jeito.
2- Depois programar a mente para não nos importamos quando as pessoas olham para os nossos sacos de pano ou rede (e termos orgulho nisso).
3- Depois lembrar-mo-nos de escolher as embalagens de vidro ou papel em deterimento das de plástico.
Começa por ser difícil mas depois entranha-se e perguntamo-nos porque, sendo tão simples, não é esse o hábito geral.

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– Abolir garrafas de água de plástico!
(Usar garrafa reutilizável para andar na mala)

Um milhão de garrafas são vendidas por minuto. Em um ano apenas, são 500 bilhões  de garrafas. Apenas 7% são reutilizadas, o resto vai poluir terra e mar. Mais precisamente 8 milhões de toneladas métricas de plástico vão parar ao oceano todos os anos.
Por esta razao, estima-se que em 2050 o oceano tenha mais plástico que peixes.

Quão assustador é isto? Por uma coisa da qual usufruimos durante 5 minutos?
Não contabilizando sequer os malefícios para a saude publica, ao estar a ingerir em microquantidades, mas durante toda a vida, microplasticos de componentes cancerígenas e outros químicos associados.

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Courtesy of Akasha. Credits to: @mohammedali6561

– Comprar a Granel
(com os sacos de pano e os frascos)

Encontrar lojas de venda a granel (cereais, leguminosas, frutos secos, detergentes, etc…), levar os saquinhos de pano e os frascos de vidro e levar para casa.
Este foi o hábito mais difícil de implementar, mas é só encontrar a loja certa e fazer disso uma agradável rotina.
E a loja certa para cada um, podem encontrá-la neste site informador: Agranel.pt

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– Usar fraldas reutilizáveis!

Cada bebé gasta em média 5000 fraldas até ao desfralde, e cada fralda demora 500 anos a desintegrar-se na Natureza. Sendo que nascem aproximadamente 360 mil bebés por dia, imaginem de quantas fraldas e anos falamos.

30 fraldas reutilizáveis fazem o serviço de cerca de 4000 fraldas descartáveis… e garanto que as novas fraldas de pano, são giras, funcionais, muito mais económicas no médio prazo e muito mais ecológicas.
Nós temos gémeos e conseguimos usar a maior parte do tempo!

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– Recusar loiça descartável

Como, em família, procuramos comer saudavelmente, não somos os melhores clientes dos restaurantes fast food. Mas às vezes não há tempo para mais, ou às vezes simplesmente apetece uma coisa não saudável!

É a altura de comer o que nos apetecer mas recusar palhinhas, copos, tampas de copos e outros recipientes de plástico sempre, sempre que puderem.

Se andarmos sempre com os nossos talheres reutilizáveis (de bambu por ex), melhor ainda.
Ao princípio parece estranho, mas é só ter em mente a nossa missão maior e tudo se torna normal e redentor.

– Compostagem: 

Nós temos a sorte de morar no campo, ter uma hortinha, e a compostagem fazer imenso jeito diariamente. Mas há quem, mesmo morando na cidade, consiga guardar as suas cascas, e restos de vegetais num recipiente fechado e ao fim de semana ir dar a uma quinta. Esta medida depende da vontade e tempo de cada um, mas que faz sentir bem, devolver o que consumimos à terra e com isso construir terra nova, sabe.

Na nossa família ainda nos falta saber lidar com algumas coisas:

– Acabar com as embalagens de shampoos e detergentes que já tínhamos e comprar nozes de saponaria para higiene ou vinagre e bicarbonato de sódio para limpezas. Mas esse ainda é um mundo novo para mim e nessa altura conto mais.

Mas ainda relacionado com o plástico, pensando directamente no planeta, cá em casa também não se come carne (a indústria mais poluidora do ambiente) e usamos veículos mais sustentáveis e aprendemos a respeitar e amar a Natureza como a nossa casa.

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Parece difícil?
E é! Os primeiros 2 meses. E depois tudo se torna natural.

Mas é garantido, que sentirmos que fazemos parte de uma missão maior é de tal forma gratificante, que supera tudo.

E vocês, que outras formas de ajudar o planeta, usam na vossa vida?
Por aqui gostamos de aprender e crescer.

Que plantemos amor!

Carta aos meus filhos sobre o tipo de educação escolhida.

Ser Mãe, é estar consciente da educação que vos dou.
Ser Mãe, é estar consciente de quem eu sou.
Porque eu sou o primeiro modelo que vocês irão seguir.

Céus, como é difícil e fascinante.

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Questionar todos os dogmas adquiridos, renunciar a muitas das receitas tradicionais de comportamento, abrir mão de chapas 5 milagrosas… porque a ideia é muito mais profunda que simples resultados imediatos…

Ser mãe consciente. Implica o quê?

Não é fácil enumerar as pedras basilares da parentalidade consciente, mas talvez comece por uma palavra chave:

Respeito – neste momento vocês ainda não têm 3 anos. E no entanto são sempre ouvidos nas decisões que vos dizem respeito, são sempre escutados mesmo nas birras que não fazem qualquer sentido para nós. Desde o dia do vosso nascimento, que sao seres de plenos direitos. Que têm necessidades, medos, e ate desejos exagerados.

Aqui em casa, não existem as frases: porque eu mando, porque eu disse que sim, porque eu é que sei.

O respeito que vos damos é proporcional ao respeito que esperamos de vós. Somos uma família. Uma família em que, desde que em respeito mútuo, todos temos o direito de tentarmos satisfazer as nossas necessidades, básicas ou supérfluas. E em que a única coisa que distingue pais e filhos, para além do tamanho, é a maior experiência de vida dos mais velhos, que permite ter mais conhecimentos.

Um não, não é um não, só porque eu posso, porque sou maior que tu, porque sou tua mãe. Um não existe, quando eu constatei, depois de avaliar conscientemente, que o sim será perigoso ou inconveniente para ti ou para os outros. E isso tem de ser explicado.
E às vezes é cansativo. Sobretudo quando é à trigésima vez…

Mas é assim que te mostro o meu respeito por ti.

É assim que te mostro que te ouvi, ponderei se te podia dizer um sim, gostaria de te dizer um sim para te agradar, mas o limite imposto pela minha experiência de vida, diz-me que o não é o melhor para ti, mesmo que não te pareça por agora.

É assim que também espero que me respeites de igual modo. Que não me fales mal, só porque sim, que não me desprezes só porque te apetece. No futuro, claro, quando a tua dependência de mim já não for necessária…

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Quando falo sobre a educação que vos dou, há muitas dúvidas sobre a questão da imposição dos limites, das regras.

Cá por casa, abunda a coerência. Um não, se bem fundamentado, é um não até daqui a 100 anos. E podem fazer as birras que quiserem, que não vai mudar.

Simplesmente o não, é dito talvez contigo ao colo, seguramente falado ao teu nível, para que eu não esteja num plano superior. É dito com carinho e compreensão pelo que tu estarás a sentir. Estarás triste e eu quero que saibas que estou aqui para ti.

Não podes fazer o que querias, mas estou aqui para ti. Tens aqui um abraço amigo para acalmares a tua dor.

Eu sei que para ti, neste momento, o brinquedo que o mano te tirou, é tão importante como o meu emprego. Que o não poderes ir ao parque infantil é tão importante como a minha viagem de férias cancelada.
O valor é diferente. A importância é igual. E é por isso que eu acho importante respeitar o que tu sentes, não menosprezar a tua frustração, deixar-te aprender a lidar com ela, e deixar claro, que mesmo que tenha sido eu a dizer-te que não, sou tua amiga.

“Precisas de um abraço?”

Podes falar comigo. Dou-te o direito de, desde que me trates com respeito, poderes dizer que estás zangado comigo, triste comigo. É a oportunidade que tenho para te explicar as minhas razões, escutar as tuas. Às vezes também eu estarei triste (até convosco) ou cansada (o que turva tanto as boas razões…). Dir-to-ei.

Não te posso nem quero bater (que exemplo te daria eu?), mas posso estar zangada contigo. Falaremos. E quando não queres, aguardo que te acalmes sozinho. Dou-te o teu espaço , que às vezes até é de orgulho ferido, e não te pressiono, mas deixo claro que é importante falarmos a seguir.

Aprendermos um com o outro. Aceitarmos que nem sempre estaremos de acordo, e que não há problema algum nisso.

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Para mim é importante deixar-te fazer birras. Deixar-te chorar e gritar, no sítio onde tu podes ser tu mesmo. Connosco. É agora que estás rodeado de segurança que podes aprender a ultrapassar as frustrações. Talvez assim, no teu futuro, as frustrações não passem de pequenos percalços ultrapassáveis.
Mas também é importante mostrar-te a questão do espaço do outro.

Se uma birra está a interromper o sono do mano, o meu trabalho, ou se é audível por toda a casa e fura a cabeça, pergunto-te se precisas da minha ajuda  para te acalmar. Se dizes que não, convido-te a sair.

Tens o direito de gritar à tua vontade, não tens o direito de incomodar os outros. “Precisas de ir gritar para a rua?”
Na porta da rua, podes dar largas à tua raiva e gritar o que te apetecer, sendo que moramos no meio do campo… Passado meio minuto estás de volta.
“Já acalmei, podemos falar”- dizes tu.

E eu fico tão orgulhosa…

Quero que confiem em mim. Não vos minto nunca. Desejo do fundo do coração nunca vos mentir. E espero com isso ser um exemplo para que nunca tenham a necessidade de me mentir a mim, nem a ninguém.

Cumpro sempre o que digo. Se nao der, explicar-vos-ei porquê e tento fazê-lo noutra  altura ou compensar com outra coisa parecida. Sendo que as compensações cá por casa, nunca são um brinquedo novo, mas antes um passeio ao rio, 15 minutos a brincar  aos carrinhos, 2 corridas para lá e para cá…

E sabes, mesmo que já não se lembrem do que vos prometi, eu vou cumprir.
É mesmo importante para mim ser essa pessoa em quem se pode confiar. E é importante sentir-me um exemplo do que gostava que vocês fossem. Alguém, tão raro hoje, em quem se pode confiar.

Tudo isto rasga e molda a minha forma de ser. Tentar ser melhor, tentar ser um bom exemplo para vocês é finalmente ter a coragem de me reconstruir à imagem do que sempre desejei ser. 

Sabes que eu nem sempre estarei certa? Treinamos para que mo possam alertar.
Quero aprender convosco.

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Sabem que já aprendo tanto convosco?

Quando vos ensino estas técnicas de auto-conhecimento das emoções, de auto-controlo em relação ao espaço e vontade dos outros, estou a fazer os possíveis por saber fazer o mesmo nas outras facetas da minha vida.

Quando tenho de recusar a mim própria a vontade de facilitar a coisa, mandar dois gritos e por-vos em ordem, e em vez disso faço de calma moderadora pela milésima vez, estou eu própria a aprender a controlar-me.

Quando questiono as formas tradicionais de educação que aprendi e tento fazer as coisas de forma mais pensada, mais consciente, mais correcta, sinto-me a contribuir para um sociedade em que os conflitos podem ser resolvidos com compreensão.

Muitas vezes, há a ideia utópica de que filhos criados desta maneira, devem ser crianças muito calmas, muito educadas, muito certinhas… Não sei dos outros criados desta maneira, nem entro em comparações em nada da vossa vida.

Mas sei que vocês fazem muitas birras, esperneiam ocasionalmente, levantam a voz quando estão mesmo chateados, e já duas vezes tentaram levantar a mão num acesso de expressão física de total desagrado.

Lá está, para mim, não bater, é um limite muito claro, absolutamente inquestionável. Seria mais fácil reagir com uma palmada de volta. Muito mais efectivo a curto prazo. Ou mesmo a longo prazo: “Não faço, porque senão também levo”…

E que raio de coerência estaria a passar-vos?
“Tu não podes bater.” Mas eu teria batido… Qual a mensagem?
Só os mais fortes podem bater?
Só os pais, porque estão no comando (a célebre palmada educativa…)?

E deixar ao acaso do destino…

Quando forem adultos, logo se vê quem comandam vocês (uma empresa, um país…), e como o farão…
Quando eu envelhecer e vocês forem mais fortes do que eu, logo se vê como reagirão às minhas birras de velha, parecidas às vossas de criança…

Um jogo de espiral inesperado e perigoso.
Não! Rejeito e não acredito nisto!
É importante que sintas, que bater numa pessoa mais velha é inadmissível.
Dir-to-ei do meu jeito mais firme e assertivo:
“Eu não deixo que tu me batas”, mas fa-lo-ei lembrando-me que essa parvoíce te deu por alguma razão.

Terei estado ausente nos últimos dias?
Terei falhado contigo de alguma maneira?
Vou tentar compreender essa razão. Vou tentar ajudar-te a ultrapassá-la.
Na próxima vez que te sintas assim, talvez me procures para te ajudar, antes de te dar para a parvoíce…

Mas assim é, para já são crianças como as outras que vejo.
Nada perfeitas, cheias de maravilhas e defeitos.
A deixar-me encantada, esgotada, honrada…amada…

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Eu não estou a tentar criar-vos crianças perfeitas, de resultados impecáveis e previsíveis. Estou a tentar criar raízes. Profundas raízes de respeito e amor entre nós, e que espero depois se multipliquem ao longo do vosso caminho na vida.

Na esperança de que a sociedade seja como a Natureza.
Sabendo que é apenas uma semente que gera as raízes. E que as raizes serão sempre a base das mais frondosas árvores.

Sou-vos tão eternamente grata por me ensinarem a transformar-me.
Estou no caminho. Apaixonada por todos os bons e maus momentos. Na esperança de vos ajudar a seguirem, sem medos, o vosso eu ideal.

Plantemos sempre amor.
Vossa Mãe

Carta aos meus filhos sobre a nossa vida como activistas ambientais

Meus amores

Hoje falo-vos da nossa casa. Não a de paredes de pedra que habitamos, mas da outra, a grande casa que nos acolhe a todos, a Terra.

Já houve um tempo em que a mãe não sabia muito sobre a poluição e suas consequências. Fui sempre seguindo as grandes modas que apareciam na televisão, como mudar as lâmpadas ou evitar os sprays… Mas, como pouco mais se falava, pouco mais a mãe fazia.
Mas a informação, nesta era da pesquisa virtual, que para nós ainda é nova, foi aparecendo, espaçada. Um video aqui, uma foto ali, uma notícia no jornal… A consciência  ambiental a crescer… E por esta altura, quando surgiu o 2º aviso dos Cientistas à Humanidade, eu já era vossa Mãe.

E como vossa Mãe, com a responsabilidade que o papel me exige, eu não podia mais ignorar esta realidade.
Dizia a carta dos 15.000 cientistas que estamos a caminho do fim da Terra.
Ainda depende de nós. Mas por muito pouco tempo.
Aqui podem ler a carta em Inglês (com possível download da versão em Português)

Ora, como posso eu amar-vos se não fizer tudo o que está ao meu alcance para vos deixar uma casa? A única que temos, o nosso planeta!

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Foto: Liana

Dizem os cientistas, e os inúmeros documentários que a mãe viu depois disso, que coisas muito más podem acontecer já no vosso futuro:

– Não existir água potável para beber
– Morrerem oceanos e florestas (e com eles a vida)
– Mudanças climáticas drásticas, com consequências de cheias, tempestades, maremotos, fogos, vagas de frio ou calor insuportável…

Lembrei as desgraças que vemos na televisão durante as catástrofes naturais, e de repente, a mãe estava tristemente a aprender que isso pode passar a ser o normal do dia a dia…
Não quero esse futuro para vós! Quando, em muita consciência, quis que viessem ao mundo, foi para vos mostrar o que de maravilhoso ele tem.
Mas os cientistas, os artigos, os documentários, dizem à mãe que isto se pode passar tudo até 2050…

Sei que sou pequenina, numa tarefa muito hercúlea. Sei que os meus recursos são bem minúsculos naquilo que represento na terra. Mas sabem que mais? Isso não me demove!
Se eu puder fazer alguma coisa para evitar que fiquemos sem flores, sem neve, sem comida, sem planeta, então é apenas isso que eu tenho de fazer!

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Foto: Liana

Conto-vos um pouco do aviso dos cientistas, que alarmou e inspirou a mãe:

” (…) desencadeamos um evento de extinção em massa, (…) no âmbito do qual muitas formas de vida atuais podem ser aniquiladas (…).
Dado que a maioria dos líderes políticos é sensível à pressão, os cientistas, os formadores de opinião nas mídias e os cidadãos em geral devem insistir para que seus governos tomem medidas imediatas (…). Com uma vaga de esforços organizados, é possível obrigar os líderes políticos a fazer o que é certo.
Também é hora de reexaminar e mudar nossos comportamentos individuais, incluindo a limitação de nossa própria reprodução e diminuir drasticamente nosso consumo per capita de combustíveis fósseis, de carne e de outros recursos.”

Percebi que há coisas que já fazíamos bem sem saber. Mas que havia tantas que estávamos (e ainda estamos) a fazer mal…

Há várias coisas que podem começar por nós, enquanto indivíduos e que, se formos muitos, pode fazer uma diferença abismal.

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Foto: Liana

Ainda da carta à Humanidade, retirei estes avisos para nos lembrar de por onde podemos começar.

“- os cidadãos em geral devem insistir para que seus governos tomem medidas imediatas.
– diminuir drasticamente nosso consumo de combustíveis fósseis, de carne e de outros recursos.
– reduzir o desperdício de alimentos
– mudar para uma alimentação à base de plantas;
– reduzir ainda mais as taxas de fecundidade;
– aumentar a educação natural e ao ar livre para crianças;
– reorientar investimentos e compras no sentido de incentivar mudanças ambientais positivas;
– adoção massiva de fontes de energia renováveis”

Ora, como vêm, na nossa família, já éramos ambientalistas, em muitas coisas, sem saber :):

– Temos um carro a gás (e no futuro procuraremos alternativas ainda mais viáveis)
– Não comemos carne
– Vocês passam a vida a brincar no meio do campo e algumas das nossas maiores aventuras são a observar e interagir com a Natureza.
– Estamos a tentar comprar cada vez menos coisas novas e supérfluas
– Fazemos compostagem do nosso lixo orgânico.

Por último a mãe descobriu um Movimento ao qual faz todo o sentido juntarmo-nos:
O Zero Waste, ou Desperdício Zero, que nos ajuda a viver com menos plástico.

O plástico está a ser uma fonte assustadora de problemas. Está a matar oceanos e a vida marinha. E sabem, amores? Sem oceanos, Não Há Vida no planeta.
Por último o plástico está a entrar nos corpos das pessoas através dos peixes que as pessoas comem. O plástico está cheio de químicos muito perigosos.
Este não é o nosso caso, porque não comemos peixe, mas é o de muitas pessoas nossas amigas. Conseguem imaginar a nossa preocupação com elas?

Ainda estamos muito no começo, mas já fazemos algumas coisas:
– Levamos sacos de pano para comprar as frutas e legumes no supermercado
– Lavamos e reutilizamos os que já temos de plástico.
– Temos sempre um recipiente para a água que enchemos quando é preciso. Nada de mini garrafas.
– Recusamos tudo o que é descartável quando comemos fora.
– Não usamos palhinhas nem cotonetes
– Mudamos para escovas de dentes de bambu
– Compramos os produtos a granel  sempre que conseguimos

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Foto: Liana

As vezes a mãe sente-se parvinha, quando recusa os sacos plásticos que as pessoas insistentemente querem oferecer. Parvinha quando aparece nas caixas com sacos de pano.
Parvinha quando recusa as palhinhas e as tampas nas raras vezes de fast-food.  Quando pede água num copo de vidro numa pastelaria…
As pessoas olham para a mãe como se fosse um alien.
Não é fácil estar no começo das mudanças.
Há 17 anos atrás quando comecei a ser vegetariana ainda era pior, porque respeitar os animais ainda era mais estranho. E hoje já há muito mais interesse e menos gozo.
Por isso, tenho esperança. E quando me sinto parvinha, por estar a ser diferente, no segundo seguinte, lembro-me das minhas razões e sinto-me orgulhosa!

“Devemos reconhecer, nas nossa vida quotidiana e nas nossas instituições de governo, que a Terra, com toda a sua vida, é o nosso único lar.”

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Foto: Patrícia Resende

Eu sou vossa Mãe. Que melhor prenda poderia eu dar-vos, que um maravilhoso planeta para viverem?

Que continuemos juntos a plantar amor.

Vossa
Mãe

Carta aos meus filhos, sobre a nossa alimentação 100% vegetariana.

Meus amores

Esta história que a mãe vai contar, começou de forma muito simples. Era uma vez uma menina que não queria comer animais. Simples assim.
Desde criança, a Mãe nunca conseguiu comer pato nem coelho. Depois numa tarde normalíssima, aos 21 anos, deparei-me com uma banca de uma associação chamada Animal, coleccionei os panfletos que mostravam a realidade da indústria, fiz as minhas perguntas e ao jantar já não comi carne. Nunca mais.
Demorei 3 meses a deixar o peixe e infelizmente por ser utópica e obtusa, mais 15 anos a deixar os lacticínios.
Casei com o vosso pai, que não sabia o que eram legumes e quase só comia bifes e batatas fritas (não comigo).
A primeira vez que a mãe lhe pos um prato vegetariano à frente, o pai torceu-se todo.
Vocês ainda não têm muita consciência disso, mas alguns primos vossos (que vocês nao conhecem) são toureiros e forcados, o pai vem de uma família tauromáquica, mas eu conheci-o com uma sensibilidade e um coração que bastou ver algumas imagens, saber algumas histórias, pensar por ele que em 1 ano ultrapassou todas as convenções em que a sociedade o cultivou, e hoje é ainda mais cuidadoso com os direitos dos animais do que eu.

Por último, quando vocês nasceram, foi por mútuo acordo que embora bebés, iriam seguir uma alimentação vegetariana desde a gestação!
Para muita gente há várias preocupações nesta opção que fiz para vós, e já me originou várias mensagens aqui na página.
A maior parte sem descriminação, apenas por desconhecimento de que possa ser saudável.
Talvez no futuro, vocês próprios me perguntem porque foram criados assim…
É por isso que hoje, é este o meu assunto.
Tenho 2 filhos bebés, que seguem uma alimentação vegetariana!

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Foto: Liana

E vou tentar resumir por pontos todas as perguntas e respostas que já dei.

1) “O que comem eles afinal? E a proteína?”
Claro que vocês sabem que comem tudo. Literalmente tudo e muito bem. Só não comem carne, nem peixe, nem lacticínios (leite de vaca, queijos, manteigas), nem ovos.
E digo só, porque só desde que sou vegetariana, é que me apercebi do mundo gigante de alimentos que existem para além da habitual alimentação omnívora.
Mas para quem não sabe, costumo enumerar:
– Comem legumes (que para além das recorrentes courgette ou bróculos, incluem beterraba, pastinaca, raiz de aipo, funcho, quiabos, couve kale, beldroegas, acelgas, etc…),
– Comem tubérculos (que para além das batatas incluem mandioca, chuchu ou ínhame),
– Comem cereais (que para além da massa e do arroz, incluem quinoa, bulgur, millet, kamut, trigo sarraceno, amaranto…),
– Comem muita fruta​, fresca e desidratada,
– Comem leguminosas (que para além das ervilhas ou grão, incluem as favas e as lentilhas e as dezenas de feijões todos como mungo ou azuki)
– Comem algas, sementes várias, leveduras e óleos naturais
– Bebem leites vegetais variadíssimos e comem queijos e manteigas de amêndoa, noz ou caju…
Não precisam de “substitutos” da carne. Por graça, comem só de vez em quando tofu, seitan ou tempeh, mas longe, muito longe de ser diariamente.
Uma alimentação vegetariana variada e naturalmente colorida tem todos os nutrientes necessários para a nossa vida, incluindo no crescimento, incluindo a proteína, sim.

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Foto: Liana

2) “Não os deixas escolher, estás a fazer a opção por eles”
Bom, eu não conheço nenhum pai, mas mesmo nenhum, que tenha perguntado à sua criança se ela optava por ser “carnívora”.
Os pais escolhem sempre a alimentação dos filhos, segundo a sua cultura, a sua religião, os seus costumes, os seus hábitos. Esta é uma das coisas nas quais as crianças não têm opção.
Mas creio, e penso ser fácil crer nisto, que se perguntassem realmente às crianças se elas queriam comer o patinho, o coelhinho, a vaquinha, o porquinho…que provavelmente muitas delas iam responder que não. Ensinamos os nossos filhos a gostar destes animaizinhos todos, heróis das histórias lindas dos livros e dos filmes, mas quantos de nós têm coragem para dizer que o que está no prato, o que eles têm de comer, é a perna do coelhinho ou a asa do patinho? Não será isso uma contradição?
Orgulho-me de que vocês saibam de onde vem toda a vossa comida, não há nada a esconder no que vem da horta e não do matadouro. Nada traumatizante ou contraditório na vossa comida.
Quando vocês tiverem maturidade suficiente para saber que as vossas escolhas alimentares têm consequências não só para vós, mas para os outros seres, e para o todo o mundo à vossa volta, já que a indústria da carne é a que causa mais emissoes de CO2, então aí estarão capazes de optar. E tenho consciência que posso criar um activista e um caçador de leões.
Ser vegetariano estrito, é muito mais do que deixar de comer animais, é uma filosofia que exclui o abuso de animais em qualquer circunstância. É um estilo de vida de compaixão, respeito e amor. Só quando crescerem, vocês poderão decidir se querem, ou não, ser realmente vegetarianos. Mas enquanto vocês não têm capacidade de optar, faço como todos, todos os pais: opto pelo que eu acho melhor para vós.

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Foto: Patrícia Resende

3) “Vão ser descriminados”
Os meus filhos não comem açúcar e isto não tem nada a ver com ser vegetariano. Eu farto-me de comer açúcar, porque é um vício, mas vocês não comem açúcar porque o açúcar é um veneno e não precisam de se habituar a um veneno. Para já o que vocês adoram as minhas papas caseiras adoçadas com fruta, os meus bolos adoçados com tâmaras e bananas. Sabem o que são doces, mas não sabem o que são gomas, nem chocolates kinder, nem refrigerantes. Só nas festas comem mais ou menos os mesmos bolos e bolachas que os outros meninos.
E sabem que mais? Neste tempo em que vivemos, acredito que se vocês vierem a ser descriminados pelos colegas, seja muito mais por não comerem açúcar do que por não comerem carne.
E então? Eu vou “envenenar” os meus filhos com açúcar para não serem descriminados?
O mesmo serve para não comer animais. Eu vou dar-vos carnes cheias de antibióticos e hormonas, esquecer todo o respeito pelos animais, para vocês não serem descriminados?
Para mim, a resposta é clara. Não. O que eu vou tentar fazer é encher-vos de amor, educação, valores, sentimento de pertença, fomentar a vossa auto-estima e dar toda a informação sobre as escolhas da família, para que tenham a bagagem correcta para não se intimidarem com a descriminação.

Sabem que a Mãe foi vítima de bullying durante vários anos da minha infância? E não era vegetariana…
Era pobre, era fadista, era filha de pais separados… Mas não era vegetariana… Quando o mundo nos encontra um ponto fraco, seja ele qual for, às vezes diverte-se a atirá-lo ainda com mais força para cima de nós. A mim, entristeceu-me e enrijeceu-me. Espero muito conseguir tornar-vos fortes através do amor e não da dor.

4) “Vão ter problemas de saúde”
Aqui eu não respondo com as minhas palavras, quando me posso valer de quem sabe muito mais do que eu.
Os últimos manuais da Direcção Geral de Saúde incluem manuais sobre alimentação vegetariana na infância e referem os benefícios de saúde em relação a uma alimentação omnívora.
Ainda assim, pelos vossos problemas cardíacos, e por descanso meu, são seguidos pela nutricionista do Hospital de Santa Cruz (que não é vegetariana e nos recebeu na primeira consulta, de sobrolho franzido, à espera de uma mãe a seguir uma moda).
Dela, recebo agora várias vezes os parabéns e a frase: “os seus filhos são mais bem alimentados que a maioria dos bebés omnívoros que eu acompanho”
As vossas análises estão óptimas e recomendam-se.
Não há nada, nada, na carne, peixe ou lacticínios que não possam obter em fontes vegetais.

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Foto: Liana

Se tive dúvidas? Claro que sim.
Quando tive o primeiro diagnóstico pré-Natal de que tu, Gabriel, tinhas uma cardiopatia a minha primeira pergunta foi: “A culpa é minha? Foi da minha alimentação?”
Quando, depois de toda a tua atribulada história, voltaste a ser internado com vómitos constantes, a recusar comer durante 15 dias, a minha primeira pergunta foi: “Será que lhe falta alguma vitamina? Será que precisa de carne ou peixe?”
Mas os médicos sempre disseram que não.
Infelizmente para nós, por ambos terem sido operados várias vezes ao coração, são inúmeras, inúmeras as equipas médicas e de enfermagem, que vos acompanham.
E felizmente, longe do que eu inicialmente contava, literalmente todas, tem dado apoio na continuação da alimentação vegetariana.
Todas têm reforçado os seus benefícios. Hospital S. Francisco Xavier, Hospital de Santa Maria, Hospital de Santa Cruz, Hospital Beatriz Ângelo…
Foram várias as vezes que nos primeiros internamentos, foram chamadas nutricionistas para falar comigo, por acharem que vocês podiam ser crianças em risco de má nutrição. Lembro-me por ex. de uma, que após me ouvir, me disse, fechando o dossier: “ok, não faço aqui nada. Estes rapazes são muito bem alimentados.”

A minha opção para vocês foi pensada e muito consciente.
Antes de vocês nascerem, eu já era vegetariana há 15 anos. Comia sem grandes cuidados e era uma má cozinheira, apesar de muito boa vontade (e mesmo assim, sempre saudável).
Quando optámos por vocês terem uma alimentação vegetariana, a responsabilidade foi totalmente diferente. Se adoecessem por minha causa, estaria a ser uma terrível e negligente mãe. Por isso, como em tudo o que faço, por vós, que seja de grande magnitude, investiguei muito. Para além das nutricionistas, li muito, juntei-me a grupos vegetarianos e aprendi.
Tornei-me uma cozinheira infalível (a necessidade aguça mesmo o engenho) e tenho um enorme orgulho em vos ouvir a pedirem sopa, feijão e couves em vez de batatas fritas e nuggets.

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Foto: Liana

Por isso, se podemos ser saudáveis (e sim, já há estudos dos efeitos a longo prazo) e respeitar a Natureza, o planeta, o ambiente e os outros seres, porque razão haveria eu de fazer outra escolha para os meus filhos?

Que continuemos juntos a plantar amor
Vossa
Mãe

Bem-vindos todos os que vieram espreitar.

Esta será a minha caixa de correio.
Aqui encontrarão cartas, ou pedaços delas. Cartas a um presente e a um futuro, forjadas pela paixão da escrita e da partilha.

Já fui (e muitas ainda sou) pintora, agricultora, trolha, artesã, vendedora de pipocas num cinema, decoradora, gestora, empresária, tutora…
Conhecem-me sobretudo como cantora.

Mas aqui, aqui vou ser Mãe (o meu maior dom e responsabilidade).
Uma mãe sem palco, sem encenações, sem ensaios e às vezes sem luzes.
Uma mae, mulher e cidadã muito atenta ao mundo real. Porque é esse mundo, bom e mau, que vou deixar aos meus filhos. E são os meus filhos, bons ou maus, o que vou deixar ao mundo.

Quando fui mãe apercebi-me que não bastava amar e estabelecer regras e limites.  Talvez me tenha apercebido que amar não tem regras nem limites. É infinito, assustador, maravilhoso e preocupante.
Apercebi-me que tinha nas mãos os dois maiores desafios de todos:
– duas crianças a quem encaminhar no desejo de que se tornem adultos com empatia e respeito pelos outros. 
– um mundo inteiro para preservar, cuidar e melhorar para deixar a estas crianças.

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Foto: António Dias

Por aqui vou partilhar essas cartas que faço para eles, para mim mesma e para quem tem paciência em me ler, e que me regem na imprevisibilidade que é a própria vida.

Não contem com vidas glamorosas, roupas e cremes de marca ou brinquedos da moda.

Aqui tenta-se aprender a viver com maior simplicidade de objectos, para dar maior valor aos sentimentos.

Aqui tenta-se aprender a cuidar da Terra. Da que nos acolhe, da que nós trabalhamos na horta, da que fazemos parte enquanto humanidade, tentando protegê-la da poluição e das histórias de conflitos.

Aqui tentamos aprender a cuidar da saúde, comendo saudavel e éticamente, e quando necessário, usando métodos naturais de cura.

Aqui tentamos aprender a cuidar da mente, praticando uma educação assente no respeito mútuo entre pais e filhos, na descoberta e aceitação de todos os sentimentos que nos atravessam e procurando lidar com eles de maneira consciente.

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Foto: Liana

Seguimos, por os achar correctos, alguns movimentos como:

Vegetarianismo (Vegan) – tipo de alimentação, cientificamente provado como saudável, e estilo de vida que exclui qualquer uso de animais.

Desperdício Zero (Zero Waste) – estilo de vida com preocupação pelo ambiente, assente nos princípios de reduzir, reutilizar e reciclar

Medicinas Alternativas – a cura e a prevenção pela alimentação, homeopatia e acupunctura, deixando os químicos apenas para quando eles são mesmo necessários.

Parentalidade Consciente (Mindful Parenting) – estilo de parentalidade que se baseia no amor como base para a criança e pais alcançarem juntos uma auto-estima saudável, respeito e empatia, autenticidade, integridade e responsabilidade pessoal.

Desescolarização (Unschooling) – estilo de aprendizagem, em que a criança não  frequenta o modelo de escola industrial e que se baseia na motivação e interesses individuais e únicos da criança para adquirir as competências necessárias à vida adulta

Minimalismo – estilo de vida que rejeita o consumismo desenfreado e que tenta reduzir as necessidades de objectos, concentrando-se naquilo que torna a vida mais feliz.

Fazemos todos estes movimentos à nossa maneira, da forma que se adapta a cada membro da nossa família.  E crescemos todos, com a sensação de que uma consciência mais tranquila é, por oposição, o sentimento menos simplista que temos. Pois a consciencia tranquila é um sentimento que nos deixa gigantes.

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Foto: António Dias

Maior que esse, só mesmo o amor constante e sereno que tentamos semear, plantar e fazer crescer entre nós e em nosso redor.  Por aqui, partilharei essas sementes, com o desejo de que, se vos fizer sentido, consigam fazer crescer algumas, entre vós.

Obrigada por receberem as minhas cartas.
Plantemos amor.