A avó Amélia…

Meus filhos

Hoje escrevo-vos a ver o rio.

Lembram-se de vos falar na bisavó Amélia?

Foi com ela e com a vossa avó que vivi até aos meus 20 anos.

A minha avó Amélia morreu há 9 anos.  Hoje quando vos deixei, disse-vos que ia buscar a avó Amélia para a pôr nas flores. Um conceito muito estranho para os vossos 3 aninhos.

Por isso esta carta não é para hoje. Tal como as outras, é para lerem mais tarde e se possível tirarem alguma lição dela.

Hoje fui buscar os ossos da avó, mas por uma estranha e triste aventura, os ossos da avó não eram dela. Tinham uma prótese e a avó não tinha nenhuma prótese.  Perdi a avó Amélia, meus amores.

Plantei os fetos e as avencas que ela gostava ao lado da nossa parede para neles se enraízarem as cinzas da avó Amélia e ela ali ficar, junto de nós, parte da terra.

Mas quis o destino que assim não fosse e a mãe viu-se, a chorar, numa contenda em busca da avó no sítio dos mortos não reclamados.
E é por isso que vos escrevo.
O sítio dos mortos não reclamados é uma casa velha cheia de sacos pretos cheios e fechados. Alguns têm mijo de gato em cima.  Há uma pia muito grande onde estão um crânio com terra e vários ossos grandes e pequenos como um velho puzzle.  Há uma sanita suja atrás de uma porta, e mesmo ao lado escondem-se mais uns quantos sacos pretos.
Dentro desses sacos, filhos, estão pessoas.
Pessoas que já não existem e que já não existe ninguém que as queira pôr nas flores.  Pessoas que viveram como nós. Que brincaram, que deram o primeiro beijo, que se apaixonaram e discutiram, que trabalharam para ter dinheiro, que passearam e sorriram e choraram como nós…
Ali, no chão, dentro de um saco preto com mijo de gato em cima…

Numa prateleira estão 5 ou 6 caixas da fruta, com ossos.  Supostamente uns deles são a Avó Amélia. Só que não são, porque a Avó Amélia não tinha nenhuma prótese…

Hoje foi a primeira vez que eu vi um esqueleto sem ser de plástico, ou sem ser na distância fria de um filme…

Na minha demanda por encontrar a Avó Amélia, fui, em lágrimas, em busca de um dos coveiros que teria levantado a avó da campa que, ironicamente, trabalha agora num talho.

E o que vi foi isto, e, reparem amores, que o que nós somos é também isto:

 

 

Iguais, meus amores.

Somos todos só isto.

Moramos aqui. Neste minúsculo planeta iluminado pelo Sol…

Somos tão importantes como a lagartixa de quem vocês às vezes correm atrás.  Como o coelho ou a vaca que é uma mãe extremosa e a quem se arrancam filhos para o prazer dos humanos. Entendem porque é que não quero comer um ser que pode ter outro à procura dos seus ossos?

No fim, tal como eles, somos só isto…

Acabamos assim.

Eu não conheço as pessoas que estavam nos outros sacos. Mas sei as histórias da Avó Amélia.  Sei que cuidou, ainda menina, dos irmãos mais novos quando o pai morreu, que sofreu muito na vida, no casamento, que teve 3 filhos, que lutou muito para ter dinheiro para dar um curso aos filhos (que estupidez não lhes ter dado antes o tempo de os fazer felizes), que criou a neta, que sou eu, enquanto lavava as escadas de outros e me ensinava a cantar. Que gritou, chorou e sofreu com toda a sua intensidade os, alguns pequenos, problemas da vida.  Que lamentou ate ao fim do seu juízo, a porcaria do cordão de ouro desaparecido…a tristeza de eu não ter um curso (eu que agora sou quase Mestre, quando quis, quando foi o tempo…).
Que sorriu quando ouvia aplaudirem-me, quando lhe dava um beijo…
Uma mulher, uma mulher como todos nós.
Agora é assim… Um conjunto de ossos, muito parecido aos de plástico e aos dos filmes.

Somos só isto, meninos. Somos só isto!

As vezes também eu me vejo em luta por mais dinheiro que dê para comprar mais isto ou mais aquilo.  As vezes também eu me vejo a discutir ninharias, desamores, desamizades, desumanidades…

Para um dia chegar ali… A um monte de ossos num saco plástico…

E é por isso que vos escrevo hoje. Queria dizer-vos que vou tentar criar-vos a saberem desta humildade do pequenos que somos…

Queria pedir-vos para, se eu conseguir ensinar-vos bem, de vez em quando me lembrarem também do mesmo.

Que eu não me deixe iludir. Que me lembre de que se viemos aqui a este minúsculo planeta, como seres absolutamente insignificantes que somos, para que o nosso tempo de existência importe, só podemos fazer duas coisas que realmente interessem.
Sobreviver ou viver.
Amar ou odiar.

Eu escolho Viver e Amar.

Podemos descobrir a penicilina, a luz, a música clássica e a pintura cubista…podemos durar até alguns séculos na mente das gerações… a ciência, a arte, o dinheiro, o  nome… que importa? Seremos ossos.

Até o amor, de facto, termina.  Os vossos bisnetos, se os tiverem, já não me irão amar…

Mas se eu tiver contribuído, anonimamente, para que ainda haja planeta quando eles nascerem, se eu tiver contribuído para que vocês saibam o que é uma família, uma comunidade, o mundo e se isso passar para as vossas próximas gerações…
Então o que eu nasci para ser terá sido cumprido.

Os ossos perdidos da avó Amélia são só ossos… Não guardo raiva a quem os perdeu. Fosse por que motivo fosse, sei que não imaginou a dor que causaria…
Gostava de a encontrar. Ainda quero levá-la para as flores.  Sabem porque a procuro? Porque no seu distorcido, estranho e pessimista jeito de gostar, sei que me amou…

Mas se não souber quais são os ossos da avó, que importa?
Ainda a amo.

E isso é tudo o que vale a pena. Somos só isto…
Amor.
Amo-vos. Sem interesse, sem medida, sem expectativa de retorno. Amo-vos.
É tudo o que me interessa cultivar.

20258337_1911969875722579_8039505940163283515_n.jpgPlantemos amor.

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