A Calma é um superpoder

Hoje é dia da raiva.
Que estranheza existirem estes dias de celebração de coisas que não interessam.
E no entanto, isso leva-me a pensar no seu oposto.
A calma.
Eu que já acalentei propositadamente mágoas que descambaram num cultivo impróprio de raivas no meu peito, hoje, busco acima de tudo… calma.
Hoje, como esposa, como profissional e sobretudo, como mãe, vejo a calma como um superpoder.
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Os meus filhos não vão à creche. Sou mãe a tempo inteiro, revezando-me o melhor possível com o pai e quase sem família por perto para ajudar.
Com uma quinta por cuidar e pelo menos duas profissões para realizar… não é fácil.
Tenho dois miúdos de 3 anitos acabados de fazer, que trepam tudo o que seja vertical (ou mesmo diagonal e periclitante), cujas brincadeiras predilectas são água (não importa de que fonte e para que fim) e espalhar brinquedos (os poucos que têm) pelas várias divisões da casa.
E enfim, são dois irmãos da mesma idade, e tão depressa estão a planear conjuntamente a próxima traquinice, e a rir desalmadamente um com o outro, como qualquer pequeno pretexto serve para implicância e consequente choro, (diria… berreiro), e até agressões.
Tenho dois miúdos que são ávidos de descoberta e que, face à ainda normal dificuldade em aceitar nãos, revelam os seus mais agudos e temíveis gritos, e os desoladores beicinhos de discordância.
Tenho dois miúdos que se zangam e que se enervam.
E o que sei é que a experiência me tem mostrado que a calma é um superpoder.
Eu tenho um semblante relativamente calmo, uma voz baixinha e muitas ferramentas para saber lidar com todas as dificuldades de ser mãe.
Mas… nao sou de ferro.
E não são tão raras as vezes quantas gostaria, em que um grita e eu elevo também a voz. Em que descambo para a chantagem em ralhete: “se não páras, acontece isto ou perdes aquilo…”
Mas sou consciente. Quando faço coisas de que me não orgulho, recrimino-me, se achar que é válido peço desculpa e sobretudo tento de imediato voltar ao caminho que tracei para a educação deles (e minha reeducação).
Mas ainda assim, estes momentos ocasionais, são um bom exemplo de como a raiva, os nervos, o stress e o fraco discernimento são uma espiral.
Se eu ralhar com a voz mais alterada, os meus filhos respondem-me aos gritos, a roçar a má-educação.
Se eu respirar antes de me alterar (inspirar e expirar ajuda a acalmar), se me ajoelhar perto deles, se falar baixo e docemente, se aplicar a entreajuda… bolas, como o resultado é magnífico.
“Estás zangado? Eu percebo. Precisas de te acalmar, para conseguires pensar como deve ser e resolver esse problema. Precisas da minha ajuda?”
E é ver as suas carinhas até aí mascaradas com o biquinho de mau e os olhos zangados, a desabarem por completo.
Quantas vezes, em momentos de fúria, também nós só precisamos de alguém que nos diga: “Eu compreendo-te. Precisas de ajuda?”
Quantas vezes um abraço de alguém é suficiente para conseguirmos restabelecer o juízo e agir com nexo?
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No caso deles, crianças ainda puras dos moldes da sociedade, é ainda mais notório. E não quer dizer que resulte em 100% das birras que fazem, mas resulta seguramente em 90% de forma mais ou menos rápida.
O facto de me manter calma, apesar de a situação me pôr a fervilhar por dentro, resolve o assunto tão mais eficientemente do que se eu me puser a gritar mais do que eles.
É certo que tenho de parar o que estou a fazer, é certo que me leva ali 5 ou 10 minutos de colinho e abraços e conversa, exactamente no momento em que tinha de enviar o e-mail urgente ou pôr o jantar ao lume… mas mal esse tempo acaba, os meus filhos são outros. Dispõem-se a fazer exactamente aquilo que não queriam e que originou a birra, sentem-se tranquilos e, mais importante do que tudo, sinto que a sua confiança em si próprios e em mim cresce notoriamente.
Um dos ensinamentos que mais me orgulho de lhes passar e aprender com eles, é que somos nós quem controla as nossas birras, os nossos nervos, as nossas frustrações…
“Estou muito zangada” – digo-lhes às vezes, depois do primeiro grito, à visão de uma qualquer colcha pintada a caneta de feltro – “preciso de respirar para me acalmar”.
Eu sou o exemplo. Eu assumo as minhas fraquezas e corrijo-me em frente a eles.
Não preciso que me achem perfeita. Preciso que saibam que faço o melhor para ser boa mãe e que isso as vezes significa perceber que estou errada ou que ainda não sei tudo.
Por norma, sentam-se comigo a respirar também. Por vezes abraçam-me ou fazem-me festinhas. “Já tás feliz, mãe?”
“Já acalmei, sim. Podemos falar?”
E a verdade é que falado, em vez de ralhado, se tem revelado muito mais eficiente para que não volte a acontecer.
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Imaginem o que seria as pessoas conseguirem escutar-se umas às outras em vez de entrar em espirais de discussões.
Imaginem o que seria crescermos todos assim e isto dar realmente resultado. Imaginem o que seria as nações respirarem e conversarem antes de decidirem entrar em mais uma absurda e dramática guerra…
Hoje, no dia da raiva, penso, constato e sei que a calma é um superpoder.

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