Ter filhos vs Ser Mãe

No início da pandemia, deparei-me com as redes sociais inundadas de mães aflitas.
As escolas encerravam e as mães pediam ajuda porque “não sabiam o que fazer com os filhos todos os dias em casa”.
No “suposto fim” da pandemia, deparo-me com inúmeras publicações de mães desesperadas por despacharem os filhos para algum lado. Porque “já não os aguentam”, porque “precisam urgentemente da sua individualidade e da sua vida de volta”.

E eu vejo isto e ando angustiada…
Ando eu a pregar às pessoas que se preocupem com os seus idosos, ando eu a sensibilizar à preocupação com os animais… e afinal há mães, de famílias supostamente bem estruturadas, influencers com milhares de seguidores nas redes sociais, que não aguentam sequer estar com os próprios filhos 1 mês e meio, em casa.

Será só a mim, que esta realidade estranha, distorcida e potencialmente perigosa atinge o coração de tristeza?

Sou mãe a tempo inteiro, apesar de também trabalhar quase diariamente no meu alojamento local, apesar de fazer ensaios e concertos, dar workshops e trabalhar na agricultura e manutenção da quinta.

Mas salvo muito raras excepções, os meus filhos estão comigo, quase sempre.
E tal como as mães que se queixam nas redes, tenho dias em que já não os posso ver à frente.
Ser mãe é o trabalho mais difícil da minha vida!
Tenho dias de gritos, tenho dias de casa num caos, tenho dias de más refeições feitas à pressa, dias de birras que me parecem ridículas e extenuantes, tenho dias de cansaço extremo, e dias de ser má mãe!

Mas não tenho um único dia em que queira a minha vida de volta.
Aliás, não sei o que é querer ter a vida de volta. Esta é a minha vida! Escolhi ser mãe!

Se virmos as coisas pela matemática, o desejo de liberdade na maternidade é irónico, no mínimo.
Vivemos uma média de 80 anos.
Os nossos filhos vivem connosco cerca de 20 anos.
Mais concretamente, realmente dependentes de nós, vivem 10 anos. Mas façamos a média nos 15.
Se considerarmos que também nós não fomos independentes durante os nossos primeiros 15 anos, sobram 50 anos.
Significa que temos cerca de 50 (CINQUENTA) anos para viver “la vida loca” sem a dependência dos filhos.

Não chega????

Precisamos de hipotecar os  primeiros 10 anos deles, a empandeirá-los para as creches, para as escolas, para os ATLs, para as actividades extracurriculares, para as babysitters, para os avós, porque… precisamos desesperadamente da nossa liberdade?

1 mês e meio com os filhos em casa …

Estamos no meio de uma pandemia, em que o mundo inteiro parou de medo, e pelos vistos, nem isso é motivo suficiente para amarmos mais os nossos filhos e querermos tê-los junto a nós (aceitando que a maternidade é difícil!).

Caramba, como me aflige esta sociedade…

E não posso deixar de descobrir a enorme diferença que há entre ter filhos, e ser Mãe.

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