Este é o Gabriel. Não costumo usar fotos frontais dos meus filhos nas redes sociais, mas desta vez, achei que devia fazê-lo.
Este é o Gabriel, tem 4 anos, um irmão gémeo, adora carros e animais e tem um sentido de humor extraordinário. Nasceu com doença cardíaca e já fez 5 cirurgias até agora.
Se o Gabriel apanhasse Covid 19, provavelmente seria mais um número nas notícias em que diriam “já tinha outras doenças associadas”.Mas a verdade é que o Gabriel é uma criança como qualquer outra. Antes do Covid 19, não tínhamos quaisquer restrições.
O Gabriel fazia ginástica, natação, corria e escalava árvores provavelmente mais rápido que muitas crianças da idade dele. Raramente apanhava sequer uma constipação e quando apanhava, uns chás e uns xaropes caseiros chegavam para passar.
Só quando surgiu o Covid 19, o Gabriel passou a ter a sua vida alterada. Deixou de ver as tias que adora, deixou de se encontrar com os amigos, e deixou até, com enorme tristeza, de ver a meia irmã, à conta do possivel risco de vida associado.
As pessoas que já morreram com Covid 19, mas que tinham outras doenças associadas, continuariam vivas com as suas doenças, se não fosse o Covid 19. Provavelmente, muitas tão alegres, bem dispostas e felizes como o Gabriel.
Então, quando achamos que esta doença só mata os velhos e os doentes (e quão egoísta e desumano já é isso) que tal parar para pensar quem é velho ou tem doenças à vossa volta? Que não parece, que faz uma vida normal, mas que se apanhasse Covid 19, poderia morrer por “já ter doenças associadas”.
E é por isso que escrevo este texto. Quando as pessoas se juntam nos cafés e nas esplanadas, nos centros comerciais ou mesmo em encontro de amigos nas praias, pelo que tenho visto estão aos magotes, “apesar de acharem que só estão com os da nossa mesa ou do nosso chapéu de sol”.
A maioria vejo com máscaras debaixo do queixo ou penduradas nas orelhas, ou mesmo sem qualquer máscara (porque “obviamente não têm Covid”).
Quando fazem isso,muitas vezes, são estas pessoas, como o Gabriel, normais aos vossos olhos mas fragilizadas, que estarão a prejudicar.
Claro que sempre existiram doenças e pessoas de risco que tinham de se proteger mais do que as outras. Mas poucas vezes houve uma pandemia em que todos dependêssemos exclusivamente, do comportamento uns dos outros.
Eu sou uma mãe, que se questiona muito sobre as questões da liberdade individual, sobre as questões das manipulações estatais no que diz respeito à gestão deste vírus. Sou das que estranha muito as contradições “agora toda a gente para casa”, ” agora toda a gente para as compras”…
Mas não posso deixar de ver os factos que estão à nossa frente.
E o que é certo, o que se sabe sobre este vírus, é que o seu contagio é superior ao de muitas outras doenças. É certo que faz um número muito elevado de doentes assintomáticos que mais facilmente propagam o vírus por não saber sequer que estão doentes. É certo que tem deixado as suas vítimas, mesmo depois de recuperadas, com vários órgãos gravemente afectados, ao contrário de uma gripe comum. É certo que tem feito milhares de vítimas mundo fora e que é particularmente fatal em grupos de risco, mas não o é exclusivamente.É certo que por ser tão contagioso e fazer tantos doentes, estrangula os sistemas de saúde a pontos inimagináveis, em que passa a ser necessário escolher vidas por simples falta de material, como aconteceu em tantos países.
O que é certo também é que nada mudou. Não há tratamento. Não há vacina.
E mais a mais já aprendemos pela experiência de outros países, que estarmos todos “à vontadinha”, não causa imunidade de grupo. Apenas mais mortos.
Consta que nesta altura, estamos a ser “salvos” pelo calor porque o vírus não se mantém tanto tempo nas superfícies.
Então aproveitemos esta oportunidade fantástica que a Natureza nos dá, para recuperar um pouco da nossa liberdade.Façamos passeios em família, aproveitemos o sol e as cores das flores que nos foram negadas durante o confinamento.
Mas por favor, até existir um tratamento eficaz, a única coisa que nos é pedida pelas comunidades médicas e científicas de todo o mundo, é que estejamos afastados de pessoas que não sejam da nossa família directa.
Por aqui, tivémos de alterar por completo a nossa vida. O pai teve de parar de trabalhar porque a profissão não era compatível com distanciamento social. Tivemos de nos reinventar economicamente. Continuamos, desde o dia 26 de Fevereiro sem ver ninguem da família, sem ver nenhum dos nossos amigos, nenhum colega de trabalho.Para proteger o Gabriel, somos do grupo de risco e aceitamos este isolamento!
À maioria de vós, só vos é pedido que não misturem agregados familiares (ou seja, que não se encontrem com famílias que não são a vossa), que usem máscara (colocada na cara!!) sempre que haja pessoas por perto, e desinfectem constantemente as mãos para não tocar em nada que possam infectar.
MESMO que achem que não estão doentes, porque na verdade não o sabem!
Quanto mais casos existirem, por conta dos comportamentos mais inconscientes, mais famílias como a nossa, com crianças de risco, idosos de risco, ou adultos de risco verão o seu confinamento muito mais estrito, e as suas economias familiares mais abaladas, e o seu medo perdurar durante muito mais tempo.
O confinamento (estarmos fechados em casa) acabou, mas os epidemiologistas dizem que o isolamento (termos sempre distanciamento social) deve continuar.
Isto não vai durar para sempre. Os adultos não morrem se não puderem ver o futebol com os amigos no café durante uma temporada, os adultos não morrem se não celebrarem o aniversário deste ano, junto com o seu pessoal, as crianças não morrem se não estiverem com os amiguinhos ou se não forem à escola durante vários meses.
Mas o Gabriel ou os Andrés ou as Marianas podem morrer em poucos dias, se as pessoas não pararem com os comportamentos centrados apenas nas suas necessidades.
Quando se esquecerem das motivações para cumprir o isolamento, lembrem-se do Gabriel.Acredito que nenhum de vós gostaria que ele fosse mais um número no noticiário.
Então, por favor, nesta época diferente de todas as que já vivemos, façam a vossa parte de solidariedade e humanidade para com os outros.
Sejam realmente responsáveis.
Em nome do Gabriel e de todas as pessoas de risco, obrigada.

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