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Não costumo misturar aqui a minha vida de cantora…
Mas a verdade é que faz parte de mim. E este tema é demasiado pessoal para ficar de fora das nossas cartas

À minha avó Amélia.

Este é o meu novo single 💛

Velha Mãe tem o acre da dor e da solidão e o néctar da ternura e da serenidade.
Tem o ensinamento e a aprendizagem de reaprender o passado e envolver o futuro.
Fala-nos da velhice, mas abraça uma vida inteira de valores por mudar.
Velha Mãe é a interrogação sobre o que é essencial no trilho de cada um. Mesmo quando o caminho já se faz só, mas não menos imprescindível.
É uma apologia ao caminho efémero da vida, ao rumo que pretendemos na família, nos amigos, nos desconhecidos por quem fazemos algo humano, ou nos que fazem por nós…
Velha Mãe tem um poder árduo, mas delicado, de nos interrogar sobre nós e os que consideramos nossos, os que já partiram, os que nasceram há pouco… e leva-nos à reflexão sobre a nossa vida e as estradas que escolhemos.

Velha Mãe é um dos temas mais belos que já cantei e que me deixou as emoções em inquietude durante largos, largos meses.
Ajudou-me a aceitar e a reconhecer quem a minha avó, que me criou, foi para mim.
Ajudou-me a alicerçar que Mãe quero ser para os meus pequenos filhos.
Velha Mãe fala do meu caminho e do caminho de todos nós.

Aqui fica a minha Velha Mãe
Que seja para vós, o bálsamo e a benção que foi para mim.

– De que te queres mascarar no Carnaval?
– De princesa.
– Pode ser rei, que também usavam vestidos?
– Não, princesa.

Estes são os meus filhos, rapazes, felizes neste Carnaval.

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Confesso que a ideia não me foi fácil. Com todo o imenso despreconceito que achava ter, ainda assim a ideia de ter a sociedade a julgar e a avaliar os meus filhos falou mais alto por uns momentos.
Tentei na minha cabeça arranjar um bom argumento para os dissuadir. Mas não havia.

Eu tenho bons motivos para lhes dizer que não podem beber álcool, conduzir um carro, subir um muro alto sem protecção, andar no meio da estrada, ou mesmo desrespeitar as pessoas.
Mas o único argumento supostamente válido para lhes dizer que não podem vestir um vestido é porque há muitas pessoas que não vão gostar. Que mãe incapaz serei eu, se basear a minha educação no que as outras pessoas vão ou não gostar, em vez de pensar na felicidade deles.
Conheço tanta gente infeliz por fazer o que a sociedade quer, por agradar aos outros em vez de a si próprio.

Os meus pequeninos têm 4 anos, não sabem de géneros, nem de descriminações, nem de “preferências”.
Sabem que são meninos, por lhes ter ensinado que são anatomicamente diferentes das meninas. Sabem que são malucos por carros, gostam de jogar à bola e os vestidos da meia irmã são a coisa mais bonita de se vestir.

E eu, que hoje felizmente me pude divertir com eles num grupo seguro sem a célebre frase “mas os meninos não usam saias” , não sei o que serão os meus filhos amanhã, nem isso me ocupa o pensamento. O meu trabalho como mãe, é apoiá-los a encontrar e a valorizar momentos de felicidade. Esteja a felicidade numa profissão com pouco valor social, numa relação diferente, numa vida eremita no fim do mundo ou num vestido de princesa.
Porque é assim que vejo o amor. E eu sou Mãe. O amor é a minha profissão.

PS: esta partilha não é para mudar os que pensam de forma diferente, é para dizer a quem pensa de forma igual que não está sozinho

Conquanto eu já conheço meio mundo, em família ainda se fizeram poucas viagens para fora.

Estas foram umas férias muito desejadas. Mas não foram umas “simples” férias na neve.
Cumprindo um desígnio de os levar a ver as maravilhas da natureza que podem vir a desaparecer quando os meus filhos forem adultos, esta foi a nossa primeira aventura.
Houve uma preparacao cuidadosa para irmos ver um glaciar.
Com as alterações climáticas, os glaciares dos Alpes estão a derreter de tal forma rápida que os vários países desta cordilheira estão a aplicar medidas científicas para que o desaparecimento dos glaciares seja adiado o mais tempo possível.
Os glaciares são importantíssimos para os ecossistemas sociais e económicos das zonas em que estão inseridos e para os ecossistemas naturais de todo o planeta.
Infelizmente, somos nós humanos e a nossa sede de consumismo, que estamos a acelerar o seu desaparecimento.

A caminho então:

 

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Quando cheguei ao cimo da montanha e pude ver este glaciar, foi um momento extremamente emotivo para mim. Confesso que as lágrimas caiam dos meus olhos.
Saberei explicar?
Sentir que talvez os meus filhos em adultos já não possam ver este fenómeno natural…
Sentir que o equilíbrio das nossas existências estava ali representado à minha frente, na forma de um rio de gelo em fim do seu tempo.

É certo que vivo num vale, que talvez já tenha sido um glaciar. É certo que o planeta tem estes ciclos e mudanças naturais.

Mas também é certo que estejamos a alterá-los de forma tão rápida, que nós, humanos, deixemos de ter lugar para existir.
Porque a Natureza, de uma forma ou outra saberá adaptar-se. Nós, tão frágeis na nossa ridícula omnipotência, não o conseguiremos.

Há um silêncio incrível no cimo de uma montanha de neve. Uma paz forte e poderosa. Mas em mim, existe um grito de alerta. É preciso salvar a Terra. É preciso salvar-mo-nos.

Nesta aventura de ensinar os meus miúdos que não vão à creche, aprendo tanto…
Agora andamos a explorar a Geologia.
Por aqui, não temos um plano do que queremos que eles aprendam.
Eles questionam sobre assuntos diversos e nós exploramos com eles os seus interesses. Haverá melhor maneira de aprender do que por curiosidade e paixão?

Então, como o interesse agora partiu de um livro pop-up com placas tectónicas, aventurámo-nos pelas consequências das mesmas.

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Para aprender os sismos, algo com o que eles já tinham ficado muito interessados com o filme do terramoto de 1755, no Lisbon Story Center, simulámos os efeitos com pequenas cidades construídas com os brinquedos deles juntando a compreensão das diferentes dimensões com os números da escala de Richter.

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Sobre os vulcões, fomos visitar um vulcão extinto e trouxemos algumas pedras de magma para analisar melhor no microscópio.

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Reutilizámos o glaciar que fizéramos com jornais, para os anos do Daniel, e tornámo-lo um vulcão, que lançava fogo e tudo 🙂 dav

 

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Para melhor compreender porque anda lava a sair aí pelas montanhas, ainda montámos metade de um planeta para perceber o seu núcleo quente.

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Para os tsunamis ainda falta fazer uma simulação numa tetina de água com casinhas de brincar.

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Juntámos alguns documentários do canal Odisseia ou da Netflix, livros da biblioteca e de amigos, e muitas conversas, e durante algumas semanas divertimo-nos a aprender este tema.

Têm 4 anos, não espero, nem de longe, que decorem nomes de tudo. Mas sei, porque até nas suas brincadeiras sozinhos isso se espelha, que com estas actividades ficam com a noção de como a vida na Terra, no Universo, funciona.

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E que ficam com a ideia, de que aprender é uma brincadeira que se segue ao descobrir de uma paixão.
Que a sua aprendizagem possa ser assim pela vida toda.

O nosso calendário de Natal, não tem chocolates (embora eles surjam espaçados ao longo do mês de dezembro).
O nosso calendário é feito com o propósito de nos lembrar a magia do Natal, que inclui muitos doces tradicionais sim, mas que é muito mais do que isso.
Baseada na palavra solidariedade mas sobretudo na palavra empatia.

Aqui não recebemos prendas do Pai Natal, nem escrevemos a pedir nada. Mas gostamos do Pai Natal e vivemos a fantasia por inteiro. Aprendemos com esta história, o contrário do pedir e do receber, aprendemos a gostar de dar, só com o intuito de fazer os outros felizes.
É essa a magia que encontramos no Pai Natal.

Ao longo do mês, imitando-o, temos muitas actividades de ofertas.
A nós próprios, que também é importante, mas sobretudo aos outros.

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Aqui ficam os meus papelinhos vintage que eu adorei fazer e acho que estão lindos 🙂
Mas aqui ficam sobretudo as ideias:

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Com massa de sal e farinha fizemos os nossos enfeites que servirão depois para por nos laços das prendas, como etiquetas.

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  • Oferecer Compaixão
    Dar cenouras aos coelhinhos selvagens. Há uma sensação gratificante em dar algo a quem sabemos que não irá dar de volta. Aqui vamos nós a distribuir cenouras pelo bosque fora, sem esperar que os coelhinhos nos ofereçam carrinhos ou legos. Simplesmente com o espirito de ajuda. Dias plenos.

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  • Oferecer criatividade
    Pintámos o nosso papel de embrulho com diferentes técnicas e foram umas horas bem divertidas.

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– Oferecer Amizade
Fazer as prendas para os amigos.
Este ano oferecemos porta-chaves para os adultos e laços e pulseiras para as meninas.
Eles fizeram os desenhos, que diminuí de tamanho na impressora e decorei com rendas, laços e cola quente.
Ficámos muito satisfeitos com o resultado final, tão personalizado e cheio do nosso amor.

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  • Oferecer Empatia
    Doar brinquedos a outros meninos.
    Eles estão habituados a ver os pais deixarem roupas e louças, que estejam a mais em casa, para serem doadas pela Junta de Freguesia. O conceito de passar aos outros o que temos a mais (ou comprar de outros em 2ª mão o que nos faz falta) já não é novo para eles. Mas é sempre diferente colocá-los a escolher os seus próprios pertences, nomeadamente o que lhes dá alegria diária como os brinquedos.
    E foi maravilhoso ver a facilidade que tiveram na partilha e como queriam anda dar mais do que eu estava à espera. Fiquei muito feliz com esta prova de que o exemplo ensina.

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Tenho muito, muito cuidado com o açúcar ao longo do ano, mas as férias, as festas de anos e o Natal estão reservados para o excesso.
Aqui um suculento chocolate quente e umas bolachas de gengibre e canela com muito sabor a Natal. Tudo vegan e saboroso.

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  • Oferecer Reconhecimento
    Fazer uma prenda para os bombeiros e levar.
    Por norma, estendemos o reconhecimento também à comunidade com prendinhas simbólicas feitas em casa, bolachinhas, broinhas, bombons… Levamos ao padeiro, ao senhor da oficina, ao senhor que corta o mato, aos vizinhos… pessoas que de uma forma ou outra tornam a nossa vida mais segura, mais fácil (ou mais saborosa).
    E como a gratidão gera sempre retorno, os bombeiros foram mostrar os carros e até ligar a sirene para deleite dos miúdos.

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  • Oferecer deslumbre
    Ir passear a Lisboa para ver as luzes de Natal.

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– Oferecer Memórias

Fazer as broinhas da avó Amélia

A avó Amélia é na verdade a bisavó deles, que eles já não conheceram, mas que continua a ser uma memória muito importante na nossa família.
Agora recordamo-la através dos sabores que nos deixou e agora sou eu e a minha mãe a ajudá-los a prepará-las.
Ao longo do mês juntamos também os bolinhos de limão da bisavó Adelina, que fazem com o pai.
As tradições de familia, em forma de receita veganizada, a tornarem-nos mais conscientes de que pertencemos a um clã, a uma pequena comunidade de entreajuda e de pertença através do amor e das recordações.

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– Oferecer Retorno
A Natureza dá-nos tanto, tanto, sem pedir nada em troca.
Desta vez homenageámos essa dádiva tão generosa.
Fomos plantar uma árvore autóctone, um carvalho, no meio da serra, sem dele esperar colher frutos ou sombra. Apenas dar, como consequência do muito que recebemos.

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  • Oferecer tradição
    Fazermos o nosso bolo rei é tradição lá em casa e fez com que o pai, que não gostava dos bolos das pastelarias o passasse a devorar.
    É sempre mágico partilhar momentos de farinha, enfeitar com frutos de cores vibrantes e esperar o resultado final que sai do forno.

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– Oferecer Diversão
No natal tentamos ir sempre a um carroussel. Sempre foi um objecto mágico para mim e agora ainda mais com eles fazendo parte daquele rodar e rodar e subir e descer, como a vida em ciclos permanentes de altos e baixos.

– Oferecer Partilha
Durante as nossas viagens de carro para a piscina ou supermercado, construímos todos juntos uma bela história de natal.
Foi um processo criativo e de entretenimento fantástico que resultou numa história muito baseada nas aventuras da nossa família, com um toque de pó de fadas. Que bela prenda para contar na noite de natal.

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Este ano, para além da história, houve um “concerto” e um “bailado” oferecido por eles. Tornou tudo tão mais lindo…

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  • Oferecer Magia
    No dia de Natal, neva sempre lá em casa. Uma máquina de neve por 80 euros foi a prenda de anos que ofereci a mim própria há uns anos atrás e de então para cá, construímos uma memória inigualável de acordar todos os dias 25 de Dezembro para uma manhã de neve.
    Este ano alguns amigos juntaram-se a nós, uma delas tao doida (ou mágica) como eu, que se mascara sempre de duende nesta data, e foi ainda mais divertido.

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A Oferta de Amor, foi dos momentos mais maravilhosos do natal, em que mesmo eles pequeninos, conseguiram identificar aquilo que mais apreciavam em nós e estar gratos por isso.
Foi um momento de tal forma puro e emotivo que nos levou às lágrimas.

Estas ofertas de uma calendário diferente, tornaram sem dúvida o nosso Natal mais feliz e compreensivo da sua verdadeira mensagem.

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Que continuemos a Plantar Amor.

Que belo dia.
Por desafio de uns amigos especiais, hoje fomos ao Ribatejo no que, se andassem na creche, seria uma saída de campo ou visita de estudo. Só que com tempo para explicar à sua escala e responder a todas as suas questões.
Fomos aos arrozais ver bem de perto as ceifeiras debulhadoras na apanha do arroz e o processo mecânico numa fábrica, desde o armazenamento nos silos até ao descascar, à separação da trinca, ao embalamento…
Tantas máquinas para lhes povoar a mente de engenhocas.

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Pelo caminho, ainda vimos o voo magistral das cegonhas, garças brancas como a neve e as pomposas garças reais, ibis en bando, pardais e falcões, e outros habitantes dos arrozais como os lagostins no lodo, a ficarem chateados por os arrozais estarem a secar.

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E até no carro nos entretivémos a encontrar formas nas nuvens, por meio de um magnífico céu de Outono em vários tons.

Já mesmo no final, e como se ainda não chegasse, descortinámos um hangar muito perto e a nosso pedido, um simpático construtor de avionetas deixou-nos andar ali a inspecionar…

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Hoje aprendemos tanto. Hoje eles trazem a mente cheia de ideias e eu um coração feliz.

Para fazerem o mesmo, podem contactar a empresa #bomsucesso
Nós iremos tentar organizar uma saída deste género uma vez por mês. Perfeito.

No meu Instagram (LianaFadooficial) há várias fotos desta aventura. Visitem.

Falemos de acordos.
O que aprendi é que nunca é demasiado cedo para começar a ensiná-los e a praticá-los.

Sabem aquelas birras gigantes para sair do parque infantil, para pararem uma barulheira quando precisamos de acabar um trabalho, para devolverem um brinquedo ao irmão, para virem para a mesa…?

Então é assim, vou directa ao assunto, não adianta nada chamar 500 vezes, tentar que tenham empatia pelo nosso desespero, ralhar, gritar…
Nada.
Muito provavelmente o resultado vai ser que nos ignorem ainda mais, ou que comecem eles próprios a sentir e a replicar o nosso stress. Com a consequente bola de neve que isso faz.
É verdade que eles são pequeninos (os meus têm 3 anos), mas acreditem que já sabem muito bem o que querem e muitas, muitas vezes, o que eles querem naquele momento, não é nada coincidente com aquilo que nós queremos. E… verdade seja dita, porque é que eles têm de parar de brincar no horário que eu imponho para comer?

Por outro lado, não me dá jeito nenhum, ter a vida ao sabor da maré das suas vontades.

Então por aqui, desenvolvemos as seguintes estratégias:

  • Respeitá-los (acima de tudo, esta é a palavra chave)
  • Avisá-los do que os espera, com alguma antecedência
  • Comunicar quando não estamos de acordo
  • Fazer um acordo

 

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Photo: Cátia Sousa

A primeira vez que a eficácia dos acordos me atingiu, foi na hora de dormir.
Tenho 2 filhos. Gémeos. A hora de dormir nunca foi a situação mais calma cá de casa. Um cantava, o outro chateava-se porque queria dormir, um batia com a mão na parede, o outro começava a levantar-se… e por aí fora.
As minhas estratégias foram muitas:
– a pacífica: “amor, está na hora de dormir, agora não podemos fazer essas coisas, tens de fechar os olhos para o soninho vir…”
– a empática: “o teu irmão quer dormir, eu também quero ir para a cama, vamos respeitar…”
– a nada empática…: “escuta, queremos dormir, se não páras e não tens sono, tens de sair do quarto” (sendo que o resto da casa estará escuro)
Conseguem compreender para onde isto se dirige, certo?…
Resultados? Uma vez ou outra, qualquer uma das três, ou outras, terá funcionado. Mas recorrentemente? Não. De todo.

O resultado era essencialmente uma mãe frustrada, a achar que não consigo que os meus filhos me respeitem (muito diferente de “que me obedeçam”, que não é uma aspiração minha).

A determinada altura, devo ter tentado a frase mágica:
– Quantas vezes mais precisas de fazer isso? Uma, duas?
Algum terá inocentemente dito duas e assim foi. Terá cantado, saltado na cama ou gritado alto, duas vezes contadas em voz alta, por mim.
“Pronto filho, obrigada por teres parado” (mesmo que ainda não o tenha feito).

Qual é o efeito disto?
O meu filho sentiu-se ouvido na sua necessidade (por absurda e stressante que seja para nós) e teve independência para ser ele a controlá-la.
Esta dádiva de lhes dar o comando da situação é muito importante para eles.

Se repararem bem, as suas curtas vidas são uma longuíssima enciclopédia de nãos.
E convenhamos que, mesmo para nós, uma vasta série de nãos é uma vasta fonte de stress.

O acordo vem equilibrar a balança.
Há coisas de que não abro mão e sou eu que decido (enquanto eles anda estão em aprendizagem): a segurança, a educação para com os outros, o respeito pela vida…
Há coisas em que lhes posso dar uma pequena vantagem, que os faz serem mais confiantes e sentirem-se mais em pé de igualdade comigo. E sim, para mim isto é importante.  É importante que eles se sintam com o mesmo valor e direitos que eu.
Acredito que se me virem a respeitá-los desde crianças, façam o mesmo comigo quando forem mais velhos.

Mas o acordo faz também com que aprendam que nem tudo gira à volta dos seus desejos e tempos, e às vezes é preciso fazermos concessões em prol do bem estar ou desejos das outras pessoas. E isto, para mim, também é uma aprendizagem muito importante.
Já conheci alguns adultos que ainda não aprenderam isto…

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Photo: Cátia Sousa

Assim sendo, deixa alguns exemplos de algumas situações específicas que acredito que todos passem:

Parque Infantil (ou casa de amigos, ou loja de brinquedos)

– 5 minutos antes de eu me querer efectivamente ir embora, vou avisá-los:
“Amores, daqui a pouco tempo temos de ir embora, porque ….(temos de ir comer, o pai está a chegar, blablabla). Podem andar mais um bocadinho e depois vamos”
– 2 ou 3 minutos antes (sendo que os meus ainda não têm grande noção de tempo), vou dizer-lhes:
“Pronto, está na hora, quantas voltinhas queres fazer mais antes de irmos embora?”
Por norma dizem 2 ou 3, eu conto alto, para eles saberem a quantas estão, e no final do combinado, os meus miúdos saem pacificamente de qualquer lado.

Ir para a mesa

–  10 minutos antes vou dizer-lhes:
“Amores, o jantar está quase pronto, mais um bocadinho para brincar e depois vão lavar as mãos”
– 5 minutos antes:
“estou mesmo a acabar o jantar, quantas voltinhas ainda vais dar com esse tractor?”
– 2 minutos antes:
“já acabaste as voltinhas? o jantar vai para a mesa”

Não é tão pacífico quanto o sair de uma zona pública. Estão em casa, no seu canto de segurança, por isso, por vezes lá há um que fica a brincar e não quer vir jantar.
Mas por aqui, como já disse antes, respeitá-los, não significa não impôr regras.
A hora da refeição é para estarmos todos. Eu estive a cozinhar para a nossa equipa família, por isso é preciso valorizar o meu trabalho e o momento em família. Quem não vem para a mesa, quando a comida vai para a mesa, já não come.
E é um facto, houve um dia em que ficaram ambos sem almoçar.
Se foi fácil para mim? Não.
Mas expliquei-lhes com toda a calma, que a hora da refeição já tinha acabado. Eu tinha chamado e eles tinham escolhido brincar e não comer, portanto agora tinham de lidar com a consequência.
Uma birra de 1 hora e um lanche super reforçado depois, a verdade é que resultou.
Agora, o acordo que vos disse em cima, não contabilizando um atraso ou outro, que aqui não somos a tropa, funciona muito bem.

Ir às compras

Ir ás compras com crianças pode ser muito stressante. Nós temos os nossos objectivos e eles não estão nem para aí virados.
No supermercado (e nós gastamos um bocado de tempo porque compramos muita coisa a granel) o truque é usar muito bem os carrinhos de compras. Podem andar sentados, podem andar em pé, lá dentro, podem conduzi-los (sim, com supervisão e longos corredores). Mas sobretudo envolvê-los nas compras em si. São eles que vão buscar produtos, que põem os legumes nos sacos (de pano!), que dizem o número para pôr na balança (e às vezes que o marcam).

Mas quando as compras são roupas ou outros produtos do género, a coisa é mais complicada. Nós normalmente só vamos às lojas de roupa nos saldos, mas como decidimos ter pouca roupa e de qualidade para durar mais (para bem do Planeta e dos trabalhadores escravizados pela indústria da moda), a busca é um bocadinho mais demorada.
Nessa altura, chegam os acordos.
Escolhemos um sitio que tenha as lojas que nós precisamos, mas que também tenha 2 ou 3 opções de brincadeiras para eles. E o acordo é:
– Agora vamos a 3 lojas de roupa comprar o que a familia precisa e a seguir vamos à zona dos escorregas. Depois vamos a mais duas lojas e vamos às bolas. E assim sucessivamente.
Às vezes há lojas que já têm entretenimento para os pequenitos, como a Kiabi. Ou há lojas que mesmo não indo lá comprar nada regularmente, fazem as delicias dos pequenitos, como a dos Legos ou uma livraria com uma boa secção de criança.
Por aqui temos a sorte de eles não pedirem para comprar nada. Nunca os habituámos a isso, por isso não entrou no registo deles. Sabem que o dinheiro é importante para pagar a comida, a casa e o carro para nos deslocarmos. E que se houver dinheiro a mais, às vezes compramos uns miminhos para a familia, incluindo brinquedos. Mas não é uma prioridade nem habitual, por isso não é referência para eles.
De qualquer forma, o importante é cumprir o que se diz. Ir contando as lojas e lembrando que a seguir é o tempo de fazer o que eles desejam. E nesse tempo, não vale entrar e sair. Direitos são direitos e é importante que eles sintam que o tempo para fazer o que eles gostam também é válido e importante.

Continua a ser um processo cansativo (sacos e putos e tempo a passar… vá… não é uma boa combinação). Mas é um processo de respeito e aprendizagem. Funciona muito, muito bem.

Dar o brinquedo ao irmão

Esta foi a que mais custou, mas a que deu mais resultados, porque ultrapassou a esfera da relação pais/filhos para abranger também a relação fraternal.

Portanto, façam-me o favor de ler mentalmente, acompanhado de muitos gritos e muito choro:
– “Oh mãe, o mano roubou o binquedo”
– “O mano já tava a bincar há muito tempo”

Explicadas todas as técnicas de “primeiro pedes, roubar não, perdes a razão, também não gostavas que o mano te roubasse a ti, etc, etc, etc…”, a melhor técnica, foi a do acordo:

–  “Oh mãe, o mano já tá a bincar há muito tempo com o carro”
–  “Pergunta ao mano quanto tempo é que ele precisa de brincar mais, para depois partilhar contigo”
– “Tantas vezes” – responde com despeito, o detentor do objecto desejado
–  “Mas eu não queo, eu queo bincar agora” – grita o que não tem o brinquedo
–  “Amor, o mano gostava de brincar também com esse brinquedo, achas que gostavas de trocar com o que o mano tem, e depois podiam combinar quantas vezes brincam e  se quiserem trocam outra vez”
– “Mano, qués trocar o binquedo comigo?” – pergunta o desesperado, em soluços reprimidos (roubar é muito mais fácil…)
– “Só vou bincar mais 2 vezes e depois já tá, sim?” – acaba por responder sem custo o que não queria trocar.
E fica resolvido. A partir dessa frase, o outro já está contente, porque a vida já não é uma incerteza, já sabe o que o espera.

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Photo: Cátia Sousa

Às vezes nem há troca. Muitas vezes, ao fim de um longo ano de mediação, eu já nem me intrometo.
“Fala com o mano, cheguem a um acordo”.
E eles já fazem um acordo entre si. Por norma, o seu tempo de duração é uma mão cheia.
“Eu so vou bincar isto (mão cheia) e depois dou a ti, sim?”

Já vi um deles tentar entrar em acordo com uma menina sobre quantas voltas no triciclo ela daria, antes de lhe emprestar a ele.
A menina não sabia destes acordos e ia-lhe passando por cima 🙂
Ainda assim, mesmo que o acordo ainda não seja uma moeda de troca muito fluente entre os pares deles, eu acho importante que eles saibam praticar esta atitude tão importante nas relações humanas.
Saber reivindicar os seus direitos enquanto se tenta respeitar os direitos dos outros. Aprender a fazer cedências. Entrar em acordo.

Quanta diplomacia deste género está em falta em muitos governos no nosso globo…?

A educação é sem dúvida uma experiência laboratorial… eu, definitivamente, não sei o que está certo ou errado. Só faço o meu melhor. E espero que estas dicas vos ajudem, em alguma altura mais conturbada.

Que plantemos amor!