bebés

No início da pandemia, deparei-me com as redes sociais inundadas de mães aflitas.
As escolas encerravam e as mães pediam ajuda porque “não sabiam o que fazer com os filhos todos os dias em casa”.
No “suposto fim” da pandemia, deparo-me com inúmeras publicações de mães desesperadas por despacharem os filhos para algum lado. Porque “já não os aguentam”, porque “precisam urgentemente da sua individualidade e da sua vida de volta”.

E eu vejo isto e ando angustiada…
Ando eu a pregar às pessoas que se preocupem com os seus idosos, ando eu a sensibilizar à preocupação com os animais… e afinal há mães, de famílias supostamente bem estruturadas, influencers com milhares de seguidores nas redes sociais, que não aguentam sequer estar com os próprios filhos 1 mês e meio, em casa.

Será só a mim, que esta realidade estranha, distorcida e potencialmente perigosa atinge o coração de tristeza?

Sou mãe a tempo inteiro, apesar de também trabalhar quase diariamente no meu alojamento local, apesar de fazer ensaios e concertos, dar workshops e trabalhar na agricultura e manutenção da quinta.

Mas salvo muito raras excepções, os meus filhos estão comigo, quase sempre.
E tal como as mães que se queixam nas redes, tenho dias em que já não os posso ver à frente.
Ser mãe é o trabalho mais difícil da minha vida!
Tenho dias de gritos, tenho dias de casa num caos, tenho dias de más refeições feitas à pressa, dias de birras que me parecem ridículas e extenuantes, tenho dias de cansaço extremo, e dias de ser má mãe!

Mas não tenho um único dia em que queira a minha vida de volta.
Aliás, não sei o que é querer ter a vida de volta. Esta é a minha vida! Escolhi ser mãe!

Se virmos as coisas pela matemática, o desejo de liberdade na maternidade é irónico, no mínimo.
Vivemos uma média de 80 anos.
Os nossos filhos vivem connosco cerca de 20 anos.
Mais concretamente, realmente dependentes de nós, vivem 10 anos. Mas façamos a média nos 15.
Se considerarmos que também nós não fomos independentes durante os nossos primeiros 15 anos, sobram 50 anos.
Significa que temos cerca de 50 (CINQUENTA) anos para viver “la vida loca” sem a dependência dos filhos.

Não chega????

Precisamos de hipotecar os  primeiros 10 anos deles, a empandeirá-los para as creches, para as escolas, para os ATLs, para as actividades extracurriculares, para as babysitters, para os avós, porque… precisamos desesperadamente da nossa liberdade?

1 mês e meio com os filhos em casa …

Estamos no meio de uma pandemia, em que o mundo inteiro parou de medo, e pelos vistos, nem isso é motivo suficiente para amarmos mais os nossos filhos e querermos tê-los junto a nós (aceitando que a maternidade é difícil!).

Caramba, como me aflige esta sociedade…

E não posso deixar de descobrir a enorme diferença que há entre ter filhos, e ser Mãe.

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Falemos de acordos.
O que aprendi é que nunca é demasiado cedo para começar a ensiná-los e a praticá-los.

Sabem aquelas birras gigantes para sair do parque infantil, para pararem uma barulheira quando precisamos de acabar um trabalho, para devolverem um brinquedo ao irmão, para virem para a mesa…?

Então é assim, vou directa ao assunto, não adianta nada chamar 500 vezes, tentar que tenham empatia pelo nosso desespero, ralhar, gritar…
Nada.
Muito provavelmente o resultado vai ser que nos ignorem ainda mais, ou que comecem eles próprios a sentir e a replicar o nosso stress. Com a consequente bola de neve que isso faz.
É verdade que eles são pequeninos (os meus têm 3 anos), mas acreditem que já sabem muito bem o que querem e muitas, muitas vezes, o que eles querem naquele momento, não é nada coincidente com aquilo que nós queremos. E… verdade seja dita, porque é que eles têm de parar de brincar no horário que eu imponho para comer?

Por outro lado, não me dá jeito nenhum, ter a vida ao sabor da maré das suas vontades.

Então por aqui, desenvolvemos as seguintes estratégias:

  • Respeitá-los (acima de tudo, esta é a palavra chave)
  • Avisá-los do que os espera, com alguma antecedência
  • Comunicar quando não estamos de acordo
  • Fazer um acordo

 

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Photo: Cátia Sousa

A primeira vez que a eficácia dos acordos me atingiu, foi na hora de dormir.
Tenho 2 filhos. Gémeos. A hora de dormir nunca foi a situação mais calma cá de casa. Um cantava, o outro chateava-se porque queria dormir, um batia com a mão na parede, o outro começava a levantar-se… e por aí fora.
As minhas estratégias foram muitas:
– a pacífica: “amor, está na hora de dormir, agora não podemos fazer essas coisas, tens de fechar os olhos para o soninho vir…”
– a empática: “o teu irmão quer dormir, eu também quero ir para a cama, vamos respeitar…”
– a nada empática…: “escuta, queremos dormir, se não páras e não tens sono, tens de sair do quarto” (sendo que o resto da casa estará escuro)
Conseguem compreender para onde isto se dirige, certo?…
Resultados? Uma vez ou outra, qualquer uma das três, ou outras, terá funcionado. Mas recorrentemente? Não. De todo.

O resultado era essencialmente uma mãe frustrada, a achar que não consigo que os meus filhos me respeitem (muito diferente de “que me obedeçam”, que não é uma aspiração minha).

A determinada altura, devo ter tentado a frase mágica:
– Quantas vezes mais precisas de fazer isso? Uma, duas?
Algum terá inocentemente dito duas e assim foi. Terá cantado, saltado na cama ou gritado alto, duas vezes contadas em voz alta, por mim.
“Pronto filho, obrigada por teres parado” (mesmo que ainda não o tenha feito).

Qual é o efeito disto?
O meu filho sentiu-se ouvido na sua necessidade (por absurda e stressante que seja para nós) e teve independência para ser ele a controlá-la.
Esta dádiva de lhes dar o comando da situação é muito importante para eles.

Se repararem bem, as suas curtas vidas são uma longuíssima enciclopédia de nãos.
E convenhamos que, mesmo para nós, uma vasta série de nãos é uma vasta fonte de stress.

O acordo vem equilibrar a balança.
Há coisas de que não abro mão e sou eu que decido (enquanto eles anda estão em aprendizagem): a segurança, a educação para com os outros, o respeito pela vida…
Há coisas em que lhes posso dar uma pequena vantagem, que os faz serem mais confiantes e sentirem-se mais em pé de igualdade comigo. E sim, para mim isto é importante.  É importante que eles se sintam com o mesmo valor e direitos que eu.
Acredito que se me virem a respeitá-los desde crianças, façam o mesmo comigo quando forem mais velhos.

Mas o acordo faz também com que aprendam que nem tudo gira à volta dos seus desejos e tempos, e às vezes é preciso fazermos concessões em prol do bem estar ou desejos das outras pessoas. E isto, para mim, também é uma aprendizagem muito importante.
Já conheci alguns adultos que ainda não aprenderam isto…

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Photo: Cátia Sousa

Assim sendo, deixa alguns exemplos de algumas situações específicas que acredito que todos passem:

Parque Infantil (ou casa de amigos, ou loja de brinquedos)

– 5 minutos antes de eu me querer efectivamente ir embora, vou avisá-los:
“Amores, daqui a pouco tempo temos de ir embora, porque ….(temos de ir comer, o pai está a chegar, blablabla). Podem andar mais um bocadinho e depois vamos”
– 2 ou 3 minutos antes (sendo que os meus ainda não têm grande noção de tempo), vou dizer-lhes:
“Pronto, está na hora, quantas voltinhas queres fazer mais antes de irmos embora?”
Por norma dizem 2 ou 3, eu conto alto, para eles saberem a quantas estão, e no final do combinado, os meus miúdos saem pacificamente de qualquer lado.

Ir para a mesa

–  10 minutos antes vou dizer-lhes:
“Amores, o jantar está quase pronto, mais um bocadinho para brincar e depois vão lavar as mãos”
– 5 minutos antes:
“estou mesmo a acabar o jantar, quantas voltinhas ainda vais dar com esse tractor?”
– 2 minutos antes:
“já acabaste as voltinhas? o jantar vai para a mesa”

Não é tão pacífico quanto o sair de uma zona pública. Estão em casa, no seu canto de segurança, por isso, por vezes lá há um que fica a brincar e não quer vir jantar.
Mas por aqui, como já disse antes, respeitá-los, não significa não impôr regras.
A hora da refeição é para estarmos todos. Eu estive a cozinhar para a nossa equipa família, por isso é preciso valorizar o meu trabalho e o momento em família. Quem não vem para a mesa, quando a comida vai para a mesa, já não come.
E é um facto, houve um dia em que ficaram ambos sem almoçar.
Se foi fácil para mim? Não.
Mas expliquei-lhes com toda a calma, que a hora da refeição já tinha acabado. Eu tinha chamado e eles tinham escolhido brincar e não comer, portanto agora tinham de lidar com a consequência.
Uma birra de 1 hora e um lanche super reforçado depois, a verdade é que resultou.
Agora, o acordo que vos disse em cima, não contabilizando um atraso ou outro, que aqui não somos a tropa, funciona muito bem.

Ir às compras

Ir ás compras com crianças pode ser muito stressante. Nós temos os nossos objectivos e eles não estão nem para aí virados.
No supermercado (e nós gastamos um bocado de tempo porque compramos muita coisa a granel) o truque é usar muito bem os carrinhos de compras. Podem andar sentados, podem andar em pé, lá dentro, podem conduzi-los (sim, com supervisão e longos corredores). Mas sobretudo envolvê-los nas compras em si. São eles que vão buscar produtos, que põem os legumes nos sacos (de pano!), que dizem o número para pôr na balança (e às vezes que o marcam).

Mas quando as compras são roupas ou outros produtos do género, a coisa é mais complicada. Nós normalmente só vamos às lojas de roupa nos saldos, mas como decidimos ter pouca roupa e de qualidade para durar mais (para bem do Planeta e dos trabalhadores escravizados pela indústria da moda), a busca é um bocadinho mais demorada.
Nessa altura, chegam os acordos.
Escolhemos um sitio que tenha as lojas que nós precisamos, mas que também tenha 2 ou 3 opções de brincadeiras para eles. E o acordo é:
– Agora vamos a 3 lojas de roupa comprar o que a familia precisa e a seguir vamos à zona dos escorregas. Depois vamos a mais duas lojas e vamos às bolas. E assim sucessivamente.
Às vezes há lojas que já têm entretenimento para os pequenitos, como a Kiabi. Ou há lojas que mesmo não indo lá comprar nada regularmente, fazem as delicias dos pequenitos, como a dos Legos ou uma livraria com uma boa secção de criança.
Por aqui temos a sorte de eles não pedirem para comprar nada. Nunca os habituámos a isso, por isso não entrou no registo deles. Sabem que o dinheiro é importante para pagar a comida, a casa e o carro para nos deslocarmos. E que se houver dinheiro a mais, às vezes compramos uns miminhos para a familia, incluindo brinquedos. Mas não é uma prioridade nem habitual, por isso não é referência para eles.
De qualquer forma, o importante é cumprir o que se diz. Ir contando as lojas e lembrando que a seguir é o tempo de fazer o que eles desejam. E nesse tempo, não vale entrar e sair. Direitos são direitos e é importante que eles sintam que o tempo para fazer o que eles gostam também é válido e importante.

Continua a ser um processo cansativo (sacos e putos e tempo a passar… vá… não é uma boa combinação). Mas é um processo de respeito e aprendizagem. Funciona muito, muito bem.

Dar o brinquedo ao irmão

Esta foi a que mais custou, mas a que deu mais resultados, porque ultrapassou a esfera da relação pais/filhos para abranger também a relação fraternal.

Portanto, façam-me o favor de ler mentalmente, acompanhado de muitos gritos e muito choro:
– “Oh mãe, o mano roubou o binquedo”
– “O mano já tava a bincar há muito tempo”

Explicadas todas as técnicas de “primeiro pedes, roubar não, perdes a razão, também não gostavas que o mano te roubasse a ti, etc, etc, etc…”, a melhor técnica, foi a do acordo:

–  “Oh mãe, o mano já tá a bincar há muito tempo com o carro”
–  “Pergunta ao mano quanto tempo é que ele precisa de brincar mais, para depois partilhar contigo”
– “Tantas vezes” – responde com despeito, o detentor do objecto desejado
–  “Mas eu não queo, eu queo bincar agora” – grita o que não tem o brinquedo
–  “Amor, o mano gostava de brincar também com esse brinquedo, achas que gostavas de trocar com o que o mano tem, e depois podiam combinar quantas vezes brincam e  se quiserem trocam outra vez”
– “Mano, qués trocar o binquedo comigo?” – pergunta o desesperado, em soluços reprimidos (roubar é muito mais fácil…)
– “Só vou bincar mais 2 vezes e depois já tá, sim?” – acaba por responder sem custo o que não queria trocar.
E fica resolvido. A partir dessa frase, o outro já está contente, porque a vida já não é uma incerteza, já sabe o que o espera.

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Photo: Cátia Sousa

Às vezes nem há troca. Muitas vezes, ao fim de um longo ano de mediação, eu já nem me intrometo.
“Fala com o mano, cheguem a um acordo”.
E eles já fazem um acordo entre si. Por norma, o seu tempo de duração é uma mão cheia.
“Eu so vou bincar isto (mão cheia) e depois dou a ti, sim?”

Já vi um deles tentar entrar em acordo com uma menina sobre quantas voltas no triciclo ela daria, antes de lhe emprestar a ele.
A menina não sabia destes acordos e ia-lhe passando por cima 🙂
Ainda assim, mesmo que o acordo ainda não seja uma moeda de troca muito fluente entre os pares deles, eu acho importante que eles saibam praticar esta atitude tão importante nas relações humanas.
Saber reivindicar os seus direitos enquanto se tenta respeitar os direitos dos outros. Aprender a fazer cedências. Entrar em acordo.

Quanta diplomacia deste género está em falta em muitos governos no nosso globo…?

A educação é sem dúvida uma experiência laboratorial… eu, definitivamente, não sei o que está certo ou errado. Só faço o meu melhor. E espero que estas dicas vos ajudem, em alguma altura mais conturbada.

Que plantemos amor!

Uma grande solução para não poluir o ambiente é usar fraldas reutilizáveis.
Segundo um estudo da Quercus cada bebé usa por mês uma média de 250 fraldas descartáveis durante 2 a 3 anos. Ou seja, cerca de 9000 fraldas em 3 anos.

Agora pensemos bem. Cada fralda, atenção, cada fralda, demora entre 500 a 600 anos a decompôr-se.
Ora, convenhamos, que é no mínimo muito estranho uma fralda com os nossos dejectos  de bebé ainda andar cá quando até os nossos trinetos já tiverem morrido… Mas pior ainda, é o mal que faz ao nosso planeta, ao nosso corpo com os seus inúmeros químicos e claro, por consequência, à nossa existência!

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Por isso, nós por aqui usámos fraldas reutilizáveis. Para proteger o ambiente, a pele dos bebés e a nossa bolsa!

Lá mais para baixo, dou umas dicas de fraldas para comprar, mas a aventura começou comigo a fazer fraldas durante a gravidez, a partir de pijamas velhos e velhas toalhas turcas 🙂

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A minha obra prima 🙂 :img_7747.jpgTambém optámos pelas Toalhitas reutilizáveis

As toalhitas e a forma inconsciente como as usamos a torto e a direito, são um dos maiores poluentes caseiros que fazemos.
Mais do que isso, a Organização Mundial de Saúde recomenda que os bebés sejam limpos com tecido ao invés de com toalhitas descartáveis impregnadas de químicos agressivos, muitas vezes alguns considerados como potencialmente cancerígenos.
Portanto, continuámos com o tecido para proteger os rabinhos das assaduras.
Isto são algumas das toalhitas, também reaproveitadas dos velhos pijamas e toalhas. A limpeza era com água com umas gotinhas de óleo de amêndoas doces.
O mais natural possível para a pele dos nossos gémeos. Passados 3 anos ainda as uso.

O mesmo serve para lenços para assoar o nariz. O nariz nunca fica assado e o nosso futuro e o ambiente agradecem.

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Agora vamos a preços:

O investimento inicial das fraldas reutilizáveis, parece ser mais elevado do que os das fraldas descartáveis.  Cerca de 500€, o que é o equivalente a meio ano de fraldas descartáveis. Mas, atenção, com uns ajustes ou outros, ocasionais, é um investimento até ao desfralde do bebé (+- 3 anos). Conquanto as fraldas descartáveis, com todos os males para o ambiente e para a pele, em 3 anos terão um custo aproximado de 3000 euros… Posto desta forma…
No entanto pode-se sempre contornar a questão de um investimento inicial elevado através das seguintes maneiras:
– pedir à família e amigos para darem uma ou duas fraldas cada um, no chá de bebé ou na visita à maternidade. Cada fralda nova custa no máximo cerca de 20€ cada uma, as mais caras.
– Pode-se comprar em 2ª mão. Esta é uma vantagem das fraldas reutilizáveis. Bem desinfectadas podem ser usadas num irmão mais novo que venha para aí, ou num sobrinho que esteja a chegar. E nesse caso, o investimento passa ainda a ter um valor mais reduzido pois serviu para duas ou mais crianças.
Há grupos no facebook, por exemplo, que vendem as fraldinhas em 2ª mão, em excelente estado, por metade do seu preço original.

É muito importante, juntarem-se a grupos virtuais e ver as criticas às várias marcas de fraldas. Há umas que são de facto muito más e dão muitas fugas. Vale a pena perder uns dias a pesquisar bem, para minimizar os riscos do investimento e a eficácia do uso. Afinal, também percorremos várias lojas em busca dos melhores sapatos e neste caso, é algo que vai durar e ser usado intensivamente durante 3 anos…

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A experiência cá por casa:

Practicidade –  Nós usámos a grande parte do tempo e tínhamos, claro, 2 crianças em fraldas ao mesmo tempo. Não acho que haja necessidade de irmos além das nossas capacidades para fazer nada, por isso houve alturas em que as fraldas reutilizáveis não eram a solução ideal. As descartáveis são indubitavelmente mais práticas e não requerem qualquer trabalho. Por isso, de vez em quando aproveitei os seus benefícios. Mas como em consciência sabia que isso não era o correcto, rapidamente ajustava melhor os absorventes, os tamanhos, para que não houvesse fugas, e lá iamos nós, de consciência tranquila e experiência tranquila com as reutilizáveis.

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Pele – A nível da pele, posso dizer que em 3 anos os nossos miúdos ficaram com a pele “assada” 3 ou 4 vezes e só nessas alturas específicas usaram aqueles cremes cheios de químicos. (O facto de dizerem aos pais para usar esses cremes todos os dias na pele ultra sensível e influenciável dos bebés, ultrapassa-me por completo). Compensa bastante usar pano, agua e um creme natural!

Visual – Em termos de visual não havia dúvida, os nossos putos ficavam mesmo giros com estas fraldinhas!

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Resiste-se?…

Então, vou dar-vos um apanhado das opções que andam por aí, para depois poderem pesquisar a vosso gosto.

a) Pré-dobradas que podem ser mais elaboradas com absorventes por dentro, como estas da foto, ou podem ser as velhinhas musselinas usadas pelas nossas mães.

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Usam-se sobretudo de noite por serem mais absorventes. Estas são feitas de bambu ou cânhamo – materiais excelentes para a pele dos bebés.

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Por cima aplicam-se as capas impermeáveis, que fazem com que não haja fugas.

c) Fraldas de bolso
já muito parecidas com as descartáveis (só é preciso tirar o absorvente de dentro para lavar).
E MUITO mais fofinhas do que as descartáveis 🙂

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d) as AIO
As AIO são tal e qual as descartáveis, só que no fim, em vez de ir para o lixo, lavam-se e reutilizam-se.

Ajudas extra:
Para colocar na fralda (serão a primeira camada junto à pele do bebé):
Fleeces –  os polares, podem comprar ou fazer como eu, que recortei de uma manta de 3 euros e que cumprem 2 funções:
– deitar mais facilmente os cocós para a sanita
– manter a pele do bebé mais seca
Liners – Toalhitas secas de papel biodegradável que se podem colocar directamente na sanita como o papel higiénico.
Servem para o mesmo que os fleeces, uma maior facilidade na remoção das necessidades sólidas.

Os ganchinhos chamam-se snappies e substituem os antigos alfinetes 🙂

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Como se lavam?
Como a roupa!! Na máquina!! Depois de deitar os cocós fora (o que os fleeces e liners tornam mais fácil), podem colocar-se num caixote à parte com um pouco de óleo de Tea Tree (desinfectante natural e inibidor de cheiros) até acumularem suficientes para a lavagem. Depois lavam-se com o detergente normal, sem amaciador, e alguns detergentes ecológicos especiais que ajudam bastante na limpeza, são baratos e duram imenso.

Para mais informações procurem por exemplo o grupo do facebook Fraldas Reutilizáveis onde vão encontrar muita ajuda.

Pelo bem do ambiente, do nosso futuro, dos bebés sem químicos e da nossa economia, experimentem!

Hoje é dia da raiva.
Que estranheza existirem estes dias de celebração de coisas que não interessam.
E no entanto, isso leva-me a pensar no seu oposto.
A calma.
Eu que já acalentei propositadamente mágoas que descambaram num cultivo impróprio de raivas no meu peito, hoje, busco acima de tudo… calma.
Hoje, como esposa, como profissional e sobretudo, como mãe, vejo a calma como um superpoder.
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Os meus filhos não vão à creche. Sou mãe a tempo inteiro, revezando-me o melhor possível com o pai e quase sem família por perto para ajudar.
Com uma quinta por cuidar e pelo menos duas profissões para realizar… não é fácil.
Tenho dois miúdos de 3 anitos acabados de fazer, que trepam tudo o que seja vertical (ou mesmo diagonal e periclitante), cujas brincadeiras predilectas são água (não importa de que fonte e para que fim) e espalhar brinquedos (os poucos que têm) pelas várias divisões da casa.
E enfim, são dois irmãos da mesma idade, e tão depressa estão a planear conjuntamente a próxima traquinice, e a rir desalmadamente um com o outro, como qualquer pequeno pretexto serve para implicância e consequente choro, (diria… berreiro), e até agressões.
Tenho dois miúdos que são ávidos de descoberta e que, face à ainda normal dificuldade em aceitar nãos, revelam os seus mais agudos e temíveis gritos, e os desoladores beicinhos de discordância.
Tenho dois miúdos que se zangam e que se enervam.
E o que sei é que a experiência me tem mostrado que a calma é um superpoder.
Eu tenho um semblante relativamente calmo, uma voz baixinha e muitas ferramentas para saber lidar com todas as dificuldades de ser mãe.
Mas… nao sou de ferro.
E não são tão raras as vezes quantas gostaria, em que um grita e eu elevo também a voz. Em que descambo para a chantagem em ralhete: “se não páras, acontece isto ou perdes aquilo…”
Mas sou consciente. Quando faço coisas de que me não orgulho, recrimino-me, se achar que é válido peço desculpa e sobretudo tento de imediato voltar ao caminho que tracei para a educação deles (e minha reeducação).
Mas ainda assim, estes momentos ocasionais, são um bom exemplo de como a raiva, os nervos, o stress e o fraco discernimento são uma espiral.
Se eu ralhar com a voz mais alterada, os meus filhos respondem-me aos gritos, a roçar a má-educação.
Se eu respirar antes de me alterar (inspirar e expirar ajuda a acalmar), se me ajoelhar perto deles, se falar baixo e docemente, se aplicar a entreajuda… bolas, como o resultado é magnífico.
“Estás zangado? Eu percebo. Precisas de te acalmar, para conseguires pensar como deve ser e resolver esse problema. Precisas da minha ajuda?”
E é ver as suas carinhas até aí mascaradas com o biquinho de mau e os olhos zangados, a desabarem por completo.
Quantas vezes, em momentos de fúria, também nós só precisamos de alguém que nos diga: “Eu compreendo-te. Precisas de ajuda?”
Quantas vezes um abraço de alguém é suficiente para conseguirmos restabelecer o juízo e agir com nexo?
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No caso deles, crianças ainda puras dos moldes da sociedade, é ainda mais notório. E não quer dizer que resulte em 100% das birras que fazem, mas resulta seguramente em 90% de forma mais ou menos rápida.
O facto de me manter calma, apesar de a situação me pôr a fervilhar por dentro, resolve o assunto tão mais eficientemente do que se eu me puser a gritar mais do que eles.
É certo que tenho de parar o que estou a fazer, é certo que me leva ali 5 ou 10 minutos de colinho e abraços e conversa, exactamente no momento em que tinha de enviar o e-mail urgente ou pôr o jantar ao lume… mas mal esse tempo acaba, os meus filhos são outros. Dispõem-se a fazer exactamente aquilo que não queriam e que originou a birra, sentem-se tranquilos e, mais importante do que tudo, sinto que a sua confiança em si próprios e em mim cresce notoriamente.
Um dos ensinamentos que mais me orgulho de lhes passar e aprender com eles, é que somos nós quem controla as nossas birras, os nossos nervos, as nossas frustrações…
“Estou muito zangada” – digo-lhes às vezes, depois do primeiro grito, à visão de uma qualquer colcha pintada a caneta de feltro – “preciso de respirar para me acalmar”.
Eu sou o exemplo. Eu assumo as minhas fraquezas e corrijo-me em frente a eles.
Não preciso que me achem perfeita. Preciso que saibam que faço o melhor para ser boa mãe e que isso as vezes significa perceber que estou errada ou que ainda não sei tudo.
Por norma, sentam-se comigo a respirar também. Por vezes abraçam-me ou fazem-me festinhas. “Já tás feliz, mãe?”
“Já acalmei, sim. Podemos falar?”
E a verdade é que falado, em vez de ralhado, se tem revelado muito mais eficiente para que não volte a acontecer.
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Imaginem o que seria as pessoas conseguirem escutar-se umas às outras em vez de entrar em espirais de discussões.
Imaginem o que seria crescermos todos assim e isto dar realmente resultado. Imaginem o que seria as nações respirarem e conversarem antes de decidirem entrar em mais uma absurda e dramática guerra…
Hoje, no dia da raiva, penso, constato e sei que a calma é um superpoder.

Cá estamos

Hoje resolvi fazer as tabelas que me fizeram muita falta em todo o meu processo de mudança de alimentação, e que espero que ajudem a descomplicar o vosso processo dos primeiros tempos.
Estas tabelas e dicas, são todas baseadas nos Manuais da Direcção Geral de Saúde, nas dicas das nossas nutricionistas e na nossa própria experiência familiar.
No entanto (!) não invalidam a vossa própria visita a um nutricionista informado, sobretudo  se estivermos a alterar a alimentação de crianças (!).

A maioria da população ocidental tem uma alimentação inadequada (associado a um estilo de vida de stress), o que tem resultado na proliferação de tantas doenças cardiovasculares, diabetes, cancro, obesidade, esgotamentos, depressões…

A alimentação vegetariana bem planeada é muito mais saudável para o nosso corpo, para a nossa consciência e sustentável para o Planeta.

Por vezes parece difícil acertar com as combinações. Este é o meu descomplicómetro 🙂
sempre atento a novas informações da comunidade cientifica e portanto em possibilidade de mudança.
Todos os documentos estão disponíveis em PDF para impressão e acesso a links, no fim da publicação.

Para começar o dia:

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Para os almoços e jantares:

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Muito importante – os complementos necessários para obtermos todos os nutrientes:

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Lista dos Alimentos de Origem Vegetal que nos providenciam as vitaminas, minerais e oligoelementos necessários à nossa saúde.
Às vezes dá jeito saber:

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Algumas dicas extra, que fazem falta:

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E por fim, endereços úteis para receitas e muito mais informação nutricional:

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Para ver com melhor qualidade, aceder a links e imprimir para a porta do frigorifico :), cliquem aqui:

Pequenos Almoços, Lanche e Snacks

Almoços e Jantares

Complementos Necessários a Alimentação Vegetariana Saudável F

TABELA DE VITAMINAS

Endereços Úteis

Espero ter ajudado.
Que continuemos a plantar amor.

 

Hoje é dia do Ambiente e pela manhã deparei-me com esta notícia nos jornais:

“Uma dieta vegan, é provavelmente o melhor caminho para reduzir o nosso impacto no planeta”  Joseph Poore, University of Oxford, UK

” Dada a crise global da obesidade, mudar a dieta, tem o potencial de nos tornar a nós, e ao planeta, mais saudáveis ”. Prof Tim Benton, at the University of Leeds, UK

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O novo estudo, publicado na revista Science, é uma das análises mais abrangentes até à data e revela que retirar a carne e os lacticínios da dieta podia reduzir a pegada de carbono de um indivíduo até 73%. Reduziria também a área mundial cultivada em 75% e ainda assim alimentaria o mundo inteiro.

“Realmente são os produtos animais que são os maiores responsáveis (pela extinção das espécies e poluição do planeta). Evitar o consumo de produtos de origem animal traz benefícios ambientais muito melhores do que tentar comprar carnes e laticínios sustentáveis, e é muito maior do que evitar as viagens ou comprar um carro elétrico”

A pesquisa da equipa de Joseph Poore é o resultado de um projeto de cinco anos de duração, que inicialmente começou como uma investigação sobre a produção sustentável de carne e laticínios.

O cientista parou de comer produtos de origem animal após o primeiro ano de estudo…

Por aqui não comemos carne, nem peixe, nem lacticínios, nem ovos. Nada de origem animal. Eu sou vegetariana há 18 anos e vegan há 2, o marido há 6 anos e os meninos desde a gestação.

E estamos saudáveis e de consciência tranquila. Pelos animais e pela nossa casa – o planeta Terra.

Nas próximas publicações, irei compor algumas tabelas que vos ajudarão a compôr as vossas refeições vegetarianas de forma saudável.
Para bom apetite e boa consciência.

Espero que vos inspirem na vossa jornada pela defesa do ambiente!

Aconselho ainda que vejam o documentário Cowspiracy, para mais informações, e que se deliciem a encontrar receitas e muita, muita informação nutricional no blog Universo dos Alimentos.

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Que continuemos a Plantar Amor

Liana

(Quando aqui falar em televisão, quero dizer todos os ecrãs com entretenimento – televisão, computador, telemóveis e tablets.)

Então, em primeiro, calma. Nós temos telemóveis, computador e televisão. Raramente está ligada, mas temos.
Eu já fui viciada em cinema e continuo a adorar filmes e séries. E mais recentemente sou vidrada em documentários.
Mas os mais novos cá em casa… vivem muito bem sem televisão.

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Então vejamos como:
– até ao ano de idade, os meus filhos viram 0 televisão.
Sim, o número está correto. Zero.
Quantas vezes me fez falta? Muitas.
É seguramente mais difícil entreter uma criança, no caso duas, sem televisão.

Mas, e não é por ser obtusa, super protectora ou querer ser diferente, mas fi-lo porque li diversos estudos de pediatria que nos garantem que os bebés não estão preparados para ver televisão.

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Credits: Patrícia Resende

O que a televisão faz (e telemóveis e tablets também):

1- os estudos referem que os estímulos visuais são demasiados e muito acelerados para a capacidade dos cérebros dos pequeninos.

2- o uso de ecrãs antes dos 18 meses, pode provocar atraso na linguagem, na leitura e na capacidade de curta-memória.

3- relacionam a tão falada hiperactividade com o demasiado tempo atrás de um ecrã, visto que nos desenhos animados os estímulos são constantes, coloridos e vibrantes e a criança fica “viciada” nessa forma de ser/estar.

4- causa crianças mais passivas a nível de criatividade, imaginação e entusiasmo próprio e com mais falta de cooperação, interesse e atenção nos estudos.

5- Em grandes estudos na América e Reino Unido relacionam inclusivamente a obesidade infantil, a agressividade e alguns problemas sociais e emocionais à exposição elevada e demasiado cedo aos ecrãs.

6- Vicia.

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Credits: Patrícia Resende

O que a televisão (telemóvel e tablet) não deixa fazer:

Mais ainda, do que o que a televisão pode fazer é o que a televisão não deixa fazer, ou seja:

1-  naturalmente os ecrãs impedem o contacto humano. Justamente aquilo que é mais necessário a uma criança, para aprender a relacionar-se consigo, com os outros e com o mundo.

2- a televisão impede o tédio, e por isso a consequente busca de entretenimento, através da criatividade e da resolução dos seus próprios problemas e frustrações.

3- minoriza a vontade de estimular fisicamente o corpo e a descoberta da Natureza e seus elementos

4- a televisão, na maioria dos conteúdos apresentados, impede a empatia e a sensibilidade ao outro, uma vez que as imagens de violência nos desenhos são uma constante a que fica habituada.

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Credits: Patrícia Resende

E as razoes continuam…
Mas estas, foram mais que suficientes para mim, para até ao 1º ano cumprir à risca, a regra de “no TV”.

A partir daí confesso que me vali algumas vezes.  Mas ainda hoje, têm quase 3 anos e a televisão está confinada a 1h ou 2h aos sábados ou domingos de manhã ou a uma ocasião esporádica de gigantes birras (e zero paciência maternal).

Verdade seja dita, por não terem sido expostos a esta realidade, os meus filhos, gostando muito de ver televisão, passado 1h já estão levantados a procurar outra coisa para brincar. Também o telemóvel é uma realidade muito restrita, em que jogam 1 jogo, adequado e didactico, ainda menos que uma vez por semana.
Tablets não sabem o que é.

Sim, têm quase 3 anos e não, não vão ser infoexcluidos.  Vários estudos demonstram que a exposição mais tardia não invalida a falta de capacidades para mexeram em ecrãs nem a sua eficiência e rapidez em relação aos mesmos.

Nesta fase de vida, as crianças precisam de tocar, cheirar, sentir. Tudo é uma novidade e tudo, absolutamente tudo é um estímulo.
Precisam dos pais. Sobretudo e acima de qualquer referência, precisam dos pais.

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Credits: Patrícia Resende

A minha introdução aos ecrãs foi portanto, gradual. Inicialmente ligava o computador à televisão e punha-lhes videos nossos. Deles próprios, do nosso casamento, das festas de anos…  O ritmo era obviamente lento e real, as situações e as personagens conhecidas e isso fazia com que eles adorassem e não se sentissem perdidos entre a realidade e a ficção.  Também colocava ballet para crianças, do género do Quebra Nozes, ou concertos de música classica infantis, por ser algo muito mais focado na música e na dança, cheio de cor mas sem um ritmo alucinante.

Por último, quando introduzi os bonecos, foi ou com escolhas minhas no YouTube, ou, se com muita pressa minha, o Baby TV.
Por ser lento, e as histórias, mesmo que às vezes muito parvas, não conterem violência nem maus exemplos.

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Credits: Patrícia Resende

A verdade é que, por estarem tão expostos e atentos às nossas conversas, leituras e brincadeiras, eles têm um vocabulário muito extenso e uma conversa já muito bem fundamentada, para além, de que mesmo prematuros e com os percalços de saúde que tiveram, nada os impede de subir muros 🙂

Houve alturas em que lá tivemos de ouvir os habituais comentários dos “coitadinhos”.
Mas já nos habituámos aos coitadinhos que não têm gomas, carne, fritos, antibióticos, televisão, creche, brinquedos demais…
Claro, que depois quando os vêm felizes e saudáveis e com um desenvolvimento acima da média, sem nada destas coisas… acabam-se os comentários.

Hoje em dia, já são eles a procurar por eles próprios a sua diversão, basta-me dar-lhes algumas “ferramentas” e eles ajeitam-se, mas deixo aqui algumas imagens de como entretia os meus miúdos antes mesmo de eles andarem.

É incrível a surpresa de umas simples panelas ou tampas entreterem tanto…
Agora, mais crescidos, privilegiamos sempre os passeios e a brincadeira ao ar livre na Natureza.

Estas fotos podem ser abertas uma a uma e têm a descrição dos materiais.
Mas também nos podem procurar no seguinte link do Pinterest:
Actividades para bebés – PlantarAmor.com

Nós gostamos muito de televisão.
Mas sem a tornar, e aos telemóveis e tablets, em perigosos babysitters.
Preparados? Toca a pôr os miúdos a puxar pela mente e corpo.

Que continuemos a plantar amor.

Liana

Carta aos meus filhos sobre o tipo de educação escolhida.

Ser Mãe, é estar consciente da educação que vos dou.
Ser Mãe, é estar consciente de quem eu sou.
Porque eu sou o primeiro modelo que vocês irão seguir.

Céus, como é difícil e fascinante.

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Questionar todos os dogmas adquiridos, renunciar a muitas das receitas tradicionais de comportamento, abrir mão de chapas 5 milagrosas… porque a ideia é muito mais profunda que simples resultados imediatos…

Ser mãe consciente. Implica o quê?

Não é fácil enumerar as pedras basilares da parentalidade consciente, mas talvez comece por uma palavra chave:

Respeito – neste momento vocês ainda não têm 3 anos. E no entanto são sempre ouvidos nas decisões que vos dizem respeito, são sempre escutados mesmo nas birras que não fazem qualquer sentido para nós. Desde o dia do vosso nascimento, que sao seres de plenos direitos. Que têm necessidades, medos, e ate desejos exagerados.

Aqui em casa, não existem as frases: porque eu mando, porque eu disse que sim, porque eu é que sei.

O respeito que vos damos é proporcional ao respeito que esperamos de vós. Somos uma família. Uma família em que, desde que em respeito mútuo, todos temos o direito de tentarmos satisfazer as nossas necessidades, básicas ou supérfluas. E em que a única coisa que distingue pais e filhos, para além do tamanho, é a maior experiência de vida dos mais velhos, que permite ter mais conhecimentos.

Um não, não é um não, só porque eu posso, porque sou maior que tu, porque sou tua mãe. Um não existe, quando eu constatei, depois de avaliar conscientemente, que o sim será perigoso ou inconveniente para ti ou para os outros. E isso tem de ser explicado.
E às vezes é cansativo. Sobretudo quando é à trigésima vez…

Mas é assim que te mostro o meu respeito por ti.

É assim que te mostro que te ouvi, ponderei se te podia dizer um sim, gostaria de te dizer um sim para te agradar, mas o limite imposto pela minha experiência de vida, diz-me que o não é o melhor para ti, mesmo que não te pareça por agora.

É assim que também espero que me respeites de igual modo. Que não me fales mal, só porque sim, que não me desprezes só porque te apetece. No futuro, claro, quando a tua dependência de mim já não for necessária…

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Quando falo sobre a educação que vos dou, há muitas dúvidas sobre a questão da imposição dos limites, das regras.

Cá por casa, abunda a coerência. Um não, se bem fundamentado, é um não até daqui a 100 anos. E podem fazer as birras que quiserem, que não vai mudar.

Simplesmente o não, é dito talvez contigo ao colo, seguramente falado ao teu nível, para que eu não esteja num plano superior. É dito com carinho e compreensão pelo que tu estarás a sentir. Estarás triste e eu quero que saibas que estou aqui para ti.

Não podes fazer o que querias, mas estou aqui para ti. Tens aqui um abraço amigo para acalmares a tua dor.

Eu sei que para ti, neste momento, o brinquedo que o mano te tirou, é tão importante como o meu emprego. Que o não poderes ir ao parque infantil é tão importante como a minha viagem de férias cancelada.
O valor é diferente. A importância é igual. E é por isso que eu acho importante respeitar o que tu sentes, não menosprezar a tua frustração, deixar-te aprender a lidar com ela, e deixar claro, que mesmo que tenha sido eu a dizer-te que não, sou tua amiga.

“Precisas de um abraço?”

Podes falar comigo. Dou-te o direito de, desde que me trates com respeito, poderes dizer que estás zangado comigo, triste comigo. É a oportunidade que tenho para te explicar as minhas razões, escutar as tuas. Às vezes também eu estarei triste (até convosco) ou cansada (o que turva tanto as boas razões…). Dir-to-ei.

Não te posso nem quero bater (que exemplo te daria eu?), mas posso estar zangada contigo. Falaremos. E quando não queres, aguardo que te acalmes sozinho. Dou-te o teu espaço , que às vezes até é de orgulho ferido, e não te pressiono, mas deixo claro que é importante falarmos a seguir.

Aprendermos um com o outro. Aceitarmos que nem sempre estaremos de acordo, e que não há problema algum nisso.

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Para mim é importante deixar-te fazer birras. Deixar-te chorar e gritar, no sítio onde tu podes ser tu mesmo. Connosco. É agora que estás rodeado de segurança que podes aprender a ultrapassar as frustrações. Talvez assim, no teu futuro, as frustrações não passem de pequenos percalços ultrapassáveis.
Mas também é importante mostrar-te a questão do espaço do outro.

Se uma birra está a interromper o sono do mano, o meu trabalho, ou se é audível por toda a casa e fura a cabeça, pergunto-te se precisas da minha ajuda  para te acalmar. Se dizes que não, convido-te a sair.

Tens o direito de gritar à tua vontade, não tens o direito de incomodar os outros. “Precisas de ir gritar para a rua?”
Na porta da rua, podes dar largas à tua raiva e gritar o que te apetecer, sendo que moramos no meio do campo… Passado meio minuto estás de volta.
“Já acalmei, podemos falar”- dizes tu.

E eu fico tão orgulhosa…

Quero que confiem em mim. Não vos minto nunca. Desejo do fundo do coração nunca vos mentir. E espero com isso ser um exemplo para que nunca tenham a necessidade de me mentir a mim, nem a ninguém.

Cumpro sempre o que digo. Se nao der, explicar-vos-ei porquê e tento fazê-lo noutra  altura ou compensar com outra coisa parecida. Sendo que as compensações cá por casa, nunca são um brinquedo novo, mas antes um passeio ao rio, 15 minutos a brincar  aos carrinhos, 2 corridas para lá e para cá…

E sabes, mesmo que já não se lembrem do que vos prometi, eu vou cumprir.
É mesmo importante para mim ser essa pessoa em quem se pode confiar. E é importante sentir-me um exemplo do que gostava que vocês fossem. Alguém, tão raro hoje, em quem se pode confiar.

Tudo isto rasga e molda a minha forma de ser. Tentar ser melhor, tentar ser um bom exemplo para vocês é finalmente ter a coragem de me reconstruir à imagem do que sempre desejei ser. 

Sabes que eu nem sempre estarei certa? Treinamos para que mo possam alertar.
Quero aprender convosco.

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Sabem que já aprendo tanto convosco?

Quando vos ensino estas técnicas de auto-conhecimento das emoções, de auto-controlo em relação ao espaço e vontade dos outros, estou a fazer os possíveis por saber fazer o mesmo nas outras facetas da minha vida.

Quando tenho de recusar a mim própria a vontade de facilitar a coisa, mandar dois gritos e por-vos em ordem, e em vez disso faço de calma moderadora pela milésima vez, estou eu própria a aprender a controlar-me.

Quando questiono as formas tradicionais de educação que aprendi e tento fazer as coisas de forma mais pensada, mais consciente, mais correcta, sinto-me a contribuir para um sociedade em que os conflitos podem ser resolvidos com compreensão.

Muitas vezes, há a ideia utópica de que filhos criados desta maneira, devem ser crianças muito calmas, muito educadas, muito certinhas… Não sei dos outros criados desta maneira, nem entro em comparações em nada da vossa vida.

Mas sei que vocês fazem muitas birras, esperneiam ocasionalmente, levantam a voz quando estão mesmo chateados, e já duas vezes tentaram levantar a mão num acesso de expressão física de total desagrado.

Lá está, para mim, não bater, é um limite muito claro, absolutamente inquestionável. Seria mais fácil reagir com uma palmada de volta. Muito mais efectivo a curto prazo. Ou mesmo a longo prazo: “Não faço, porque senão também levo”…

E que raio de coerência estaria a passar-vos?
“Tu não podes bater.” Mas eu teria batido… Qual a mensagem?
Só os mais fortes podem bater?
Só os pais, porque estão no comando (a célebre palmada educativa…)?

E deixar ao acaso do destino…

Quando forem adultos, logo se vê quem comandam vocês (uma empresa, um país…), e como o farão…
Quando eu envelhecer e vocês forem mais fortes do que eu, logo se vê como reagirão às minhas birras de velha, parecidas às vossas de criança…

Um jogo de espiral inesperado e perigoso.
Não! Rejeito e não acredito nisto!
É importante que sintas, que bater numa pessoa mais velha é inadmissível.
Dir-to-ei do meu jeito mais firme e assertivo:
“Eu não deixo que tu me batas”, mas fa-lo-ei lembrando-me que essa parvoíce te deu por alguma razão.

Terei estado ausente nos últimos dias?
Terei falhado contigo de alguma maneira?
Vou tentar compreender essa razão. Vou tentar ajudar-te a ultrapassá-la.
Na próxima vez que te sintas assim, talvez me procures para te ajudar, antes de te dar para a parvoíce…

Mas assim é, para já são crianças como as outras que vejo.
Nada perfeitas, cheias de maravilhas e defeitos.
A deixar-me encantada, esgotada, honrada…amada…

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Eu não estou a tentar criar-vos crianças perfeitas, de resultados impecáveis e previsíveis. Estou a tentar criar raízes. Profundas raízes de respeito e amor entre nós, e que espero depois se multipliquem ao longo do vosso caminho na vida.

Na esperança de que a sociedade seja como a Natureza.
Sabendo que é apenas uma semente que gera as raízes. E que as raizes serão sempre a base das mais frondosas árvores.

Sou-vos tão eternamente grata por me ensinarem a transformar-me.
Estou no caminho. Apaixonada por todos os bons e maus momentos. Na esperança de vos ajudar a seguirem, sem medos, o vosso eu ideal.

Plantemos sempre amor.
Vossa Mãe

Carta aos meus filhos sobre a nossa vida como activistas ambientais

Meus amores

Hoje falo-vos da nossa casa. Não a de paredes de pedra que habitamos, mas da outra, a grande casa que nos acolhe a todos, a Terra.

Já houve um tempo em que a mãe não sabia muito sobre a poluição e suas consequências. Fui sempre seguindo as grandes modas que apareciam na televisão, como mudar as lâmpadas ou evitar os sprays… Mas, como pouco mais se falava, pouco mais a mãe fazia.
Mas a informação, nesta era da pesquisa virtual, que para nós ainda é nova, foi aparecendo, espaçada. Um video aqui, uma foto ali, uma notícia no jornal… A consciência  ambiental a crescer… E por esta altura, quando surgiu o 2º aviso dos Cientistas à Humanidade, eu já era vossa Mãe.

E como vossa Mãe, com a responsabilidade que o papel me exige, eu não podia mais ignorar esta realidade.
Dizia a carta dos 15.000 cientistas que estamos a caminho do fim da Terra.
Ainda depende de nós. Mas por muito pouco tempo.
Aqui podem ler a carta em Inglês (com possível download da versão em Português)

Ora, como posso eu amar-vos se não fizer tudo o que está ao meu alcance para vos deixar uma casa? A única que temos, o nosso planeta!

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Foto: Liana

Dizem os cientistas, e os inúmeros documentários que a mãe viu depois disso, que coisas muito más podem acontecer já no vosso futuro:

– Não existir água potável para beber
– Morrerem oceanos e florestas (e com eles a vida)
– Mudanças climáticas drásticas, com consequências de cheias, tempestades, maremotos, fogos, vagas de frio ou calor insuportável…

Lembrei as desgraças que vemos na televisão durante as catástrofes naturais, e de repente, a mãe estava tristemente a aprender que isso pode passar a ser o normal do dia a dia…
Não quero esse futuro para vós! Quando, em muita consciência, quis que viessem ao mundo, foi para vos mostrar o que de maravilhoso ele tem.
Mas os cientistas, os artigos, os documentários, dizem à mãe que isto se pode passar tudo até 2050…

Sei que sou pequenina, numa tarefa muito hercúlea. Sei que os meus recursos são bem minúsculos naquilo que represento na terra. Mas sabem que mais? Isso não me demove!
Se eu puder fazer alguma coisa para evitar que fiquemos sem flores, sem neve, sem comida, sem planeta, então é apenas isso que eu tenho de fazer!

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Conto-vos um pouco do aviso dos cientistas, que alarmou e inspirou a mãe:

” (…) desencadeamos um evento de extinção em massa, (…) no âmbito do qual muitas formas de vida atuais podem ser aniquiladas (…).
Dado que a maioria dos líderes políticos é sensível à pressão, os cientistas, os formadores de opinião nas mídias e os cidadãos em geral devem insistir para que seus governos tomem medidas imediatas (…). Com uma vaga de esforços organizados, é possível obrigar os líderes políticos a fazer o que é certo.
Também é hora de reexaminar e mudar nossos comportamentos individuais, incluindo a limitação de nossa própria reprodução e diminuir drasticamente nosso consumo per capita de combustíveis fósseis, de carne e de outros recursos.”

Percebi que há coisas que já fazíamos bem sem saber. Mas que havia tantas que estávamos (e ainda estamos) a fazer mal…

Há várias coisas que podem começar por nós, enquanto indivíduos e que, se formos muitos, pode fazer uma diferença abismal.

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Foto: Liana

Ainda da carta à Humanidade, retirei estes avisos para nos lembrar de por onde podemos começar.

“- os cidadãos em geral devem insistir para que seus governos tomem medidas imediatas.
– diminuir drasticamente nosso consumo de combustíveis fósseis, de carne e de outros recursos.
– reduzir o desperdício de alimentos
– mudar para uma alimentação à base de plantas;
– reduzir ainda mais as taxas de fecundidade;
– aumentar a educação natural e ao ar livre para crianças;
– reorientar investimentos e compras no sentido de incentivar mudanças ambientais positivas;
– adoção massiva de fontes de energia renováveis”

Ora, como vêm, na nossa família, já éramos ambientalistas, em muitas coisas, sem saber :):

– Temos um carro a gás (e no futuro procuraremos alternativas ainda mais viáveis)
– Não comemos carne
– Vocês passam a vida a brincar no meio do campo e algumas das nossas maiores aventuras são a observar e interagir com a Natureza.
– Estamos a tentar comprar cada vez menos coisas novas e supérfluas
– Fazemos compostagem do nosso lixo orgânico.

Por último a mãe descobriu um Movimento ao qual faz todo o sentido juntarmo-nos:
O Zero Waste, ou Desperdício Zero, que nos ajuda a viver com menos plástico.

O plástico está a ser uma fonte assustadora de problemas. Está a matar oceanos e a vida marinha. E sabem, amores? Sem oceanos, Não Há Vida no planeta.
Por último o plástico está a entrar nos corpos das pessoas através dos peixes que as pessoas comem. O plástico está cheio de químicos muito perigosos.
Este não é o nosso caso, porque não comemos peixe, mas é o de muitas pessoas nossas amigas. Conseguem imaginar a nossa preocupação com elas?

Ainda estamos muito no começo, mas já fazemos algumas coisas:
– Levamos sacos de pano para comprar as frutas e legumes no supermercado
– Lavamos e reutilizamos os que já temos de plástico.
– Temos sempre um recipiente para a água que enchemos quando é preciso. Nada de mini garrafas.
– Recusamos tudo o que é descartável quando comemos fora.
– Não usamos palhinhas nem cotonetes
– Mudamos para escovas de dentes de bambu
– Compramos os produtos a granel  sempre que conseguimos

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Foto: Liana

As vezes a mãe sente-se parvinha, quando recusa os sacos plásticos que as pessoas insistentemente querem oferecer. Parvinha quando aparece nas caixas com sacos de pano.
Parvinha quando recusa as palhinhas e as tampas nas raras vezes de fast-food.  Quando pede água num copo de vidro numa pastelaria…
As pessoas olham para a mãe como se fosse um alien.
Não é fácil estar no começo das mudanças.
Há 17 anos atrás quando comecei a ser vegetariana ainda era pior, porque respeitar os animais ainda era mais estranho. E hoje já há muito mais interesse e menos gozo.
Por isso, tenho esperança. E quando me sinto parvinha, por estar a ser diferente, no segundo seguinte, lembro-me das minhas razões e sinto-me orgulhosa!

“Devemos reconhecer, nas nossa vida quotidiana e nas nossas instituições de governo, que a Terra, com toda a sua vida, é o nosso único lar.”

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Foto: Patrícia Resende

Eu sou vossa Mãe. Que melhor prenda poderia eu dar-vos, que um maravilhoso planeta para viverem?

Que continuemos juntos a plantar amor.

Vossa
Mãe

Carta aos meus filhos, sobre a nossa alimentação 100% vegetariana.

Meus amores

Esta história que a mãe vai contar, começou de forma muito simples. Era uma vez uma menina que não queria comer animais. Simples assim.
Desde criança, a Mãe nunca conseguiu comer pato nem coelho. Depois numa tarde normalíssima, aos 21 anos, deparei-me com uma banca de uma associação chamada Animal, coleccionei os panfletos que mostravam a realidade da indústria, fiz as minhas perguntas e ao jantar já não comi carne. Nunca mais.
Demorei 3 meses a deixar o peixe e infelizmente por ser utópica e obtusa, mais 15 anos a deixar os lacticínios.
Casei com o vosso pai, que não sabia o que eram legumes e quase só comia bifes e batatas fritas (não comigo).
A primeira vez que a mãe lhe pos um prato vegetariano à frente, o pai torceu-se todo.
Vocês ainda não têm muita consciência disso, mas alguns primos vossos (que vocês nao conhecem) são toureiros e forcados, o pai vem de uma família tauromáquica, mas eu conheci-o com uma sensibilidade e um coração que bastou ver algumas imagens, saber algumas histórias, pensar por ele que em 1 ano ultrapassou todas as convenções em que a sociedade o cultivou, e hoje é ainda mais cuidadoso com os direitos dos animais do que eu.

Por último, quando vocês nasceram, foi por mútuo acordo que embora bebés, iriam seguir uma alimentação vegetariana desde a gestação!
Para muita gente há várias preocupações nesta opção que fiz para vós, e já me originou várias mensagens aqui na página.
A maior parte sem descriminação, apenas por desconhecimento de que possa ser saudável.
Talvez no futuro, vocês próprios me perguntem porque foram criados assim…
É por isso que hoje, é este o meu assunto.
Tenho 2 filhos bebés, que seguem uma alimentação vegetariana!

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Foto: Liana

E vou tentar resumir por pontos todas as perguntas e respostas que já dei.

1) “O que comem eles afinal? E a proteína?”
Claro que vocês sabem que comem tudo. Literalmente tudo e muito bem. Só não comem carne, nem peixe, nem lacticínios (leite de vaca, queijos, manteigas), nem ovos.
E digo só, porque só desde que sou vegetariana, é que me apercebi do mundo gigante de alimentos que existem para além da habitual alimentação omnívora.
Mas para quem não sabe, costumo enumerar:
– Comem legumes (que para além das recorrentes courgette ou bróculos, incluem beterraba, pastinaca, raiz de aipo, funcho, quiabos, couve kale, beldroegas, acelgas, etc…),
– Comem tubérculos (que para além das batatas incluem mandioca, chuchu ou ínhame),
– Comem cereais (que para além da massa e do arroz, incluem quinoa, bulgur, millet, kamut, trigo sarraceno, amaranto…),
– Comem muita fruta​, fresca e desidratada,
– Comem leguminosas (que para além das ervilhas ou grão, incluem as favas e as lentilhas e as dezenas de feijões todos como mungo ou azuki)
– Comem algas, sementes várias, leveduras e óleos naturais
– Bebem leites vegetais variadíssimos e comem queijos e manteigas de amêndoa, noz ou caju…
Não precisam de “substitutos” da carne. Por graça, comem só de vez em quando tofu, seitan ou tempeh, mas longe, muito longe de ser diariamente.
Uma alimentação vegetariana variada e naturalmente colorida tem todos os nutrientes necessários para a nossa vida, incluindo no crescimento, incluindo a proteína, sim.

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Foto: Liana

2) “Não os deixas escolher, estás a fazer a opção por eles”
Bom, eu não conheço nenhum pai, mas mesmo nenhum, que tenha perguntado à sua criança se ela optava por ser “carnívora”.
Os pais escolhem sempre a alimentação dos filhos, segundo a sua cultura, a sua religião, os seus costumes, os seus hábitos. Esta é uma das coisas nas quais as crianças não têm opção.
Mas creio, e penso ser fácil crer nisto, que se perguntassem realmente às crianças se elas queriam comer o patinho, o coelhinho, a vaquinha, o porquinho…que provavelmente muitas delas iam responder que não. Ensinamos os nossos filhos a gostar destes animaizinhos todos, heróis das histórias lindas dos livros e dos filmes, mas quantos de nós têm coragem para dizer que o que está no prato, o que eles têm de comer, é a perna do coelhinho ou a asa do patinho? Não será isso uma contradição?
Orgulho-me de que vocês saibam de onde vem toda a vossa comida, não há nada a esconder no que vem da horta e não do matadouro. Nada traumatizante ou contraditório na vossa comida.
Quando vocês tiverem maturidade suficiente para saber que as vossas escolhas alimentares têm consequências não só para vós, mas para os outros seres, e para o todo o mundo à vossa volta, já que a indústria da carne é a que causa mais emissoes de CO2, então aí estarão capazes de optar. E tenho consciência que posso criar um activista e um caçador de leões.
Ser vegetariano estrito, é muito mais do que deixar de comer animais, é uma filosofia que exclui o abuso de animais em qualquer circunstância. É um estilo de vida de compaixão, respeito e amor. Só quando crescerem, vocês poderão decidir se querem, ou não, ser realmente vegetarianos. Mas enquanto vocês não têm capacidade de optar, faço como todos, todos os pais: opto pelo que eu acho melhor para vós.

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Foto: Patrícia Resende

3) “Vão ser descriminados”
Os meus filhos não comem açúcar e isto não tem nada a ver com ser vegetariano. Eu farto-me de comer açúcar, porque é um vício, mas vocês não comem açúcar porque o açúcar é um veneno e não precisam de se habituar a um veneno. Para já o que vocês adoram as minhas papas caseiras adoçadas com fruta, os meus bolos adoçados com tâmaras e bananas. Sabem o que são doces, mas não sabem o que são gomas, nem chocolates kinder, nem refrigerantes. Só nas festas comem mais ou menos os mesmos bolos e bolachas que os outros meninos.
E sabem que mais? Neste tempo em que vivemos, acredito que se vocês vierem a ser descriminados pelos colegas, seja muito mais por não comerem açúcar do que por não comerem carne.
E então? Eu vou “envenenar” os meus filhos com açúcar para não serem descriminados?
O mesmo serve para não comer animais. Eu vou dar-vos carnes cheias de antibióticos e hormonas, esquecer todo o respeito pelos animais, para vocês não serem descriminados?
Para mim, a resposta é clara. Não. O que eu vou tentar fazer é encher-vos de amor, educação, valores, sentimento de pertença, fomentar a vossa auto-estima e dar toda a informação sobre as escolhas da família, para que tenham a bagagem correcta para não se intimidarem com a descriminação.

Sabem que a Mãe foi vítima de bullying durante vários anos da minha infância? E não era vegetariana…
Era pobre, era fadista, era filha de pais separados… Mas não era vegetariana… Quando o mundo nos encontra um ponto fraco, seja ele qual for, às vezes diverte-se a atirá-lo ainda com mais força para cima de nós. A mim, entristeceu-me e enrijeceu-me. Espero muito conseguir tornar-vos fortes através do amor e não da dor.

4) “Vão ter problemas de saúde”
Aqui eu não respondo com as minhas palavras, quando me posso valer de quem sabe muito mais do que eu.
Os últimos manuais da Direcção Geral de Saúde incluem manuais sobre alimentação vegetariana na infância e referem os benefícios de saúde em relação a uma alimentação omnívora.
Ainda assim, pelos vossos problemas cardíacos, e por descanso meu, são seguidos pela nutricionista do Hospital de Santa Cruz (que não é vegetariana e nos recebeu na primeira consulta, de sobrolho franzido, à espera de uma mãe a seguir uma moda).
Dela, recebo agora várias vezes os parabéns e a frase: “os seus filhos são mais bem alimentados que a maioria dos bebés omnívoros que eu acompanho”
As vossas análises estão óptimas e recomendam-se.
Não há nada, nada, na carne, peixe ou lacticínios que não possam obter em fontes vegetais.

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Foto: Liana

Se tive dúvidas? Claro que sim.
Quando tive o primeiro diagnóstico pré-Natal de que tu, Gabriel, tinhas uma cardiopatia a minha primeira pergunta foi: “A culpa é minha? Foi da minha alimentação?”
Quando, depois de toda a tua atribulada história, voltaste a ser internado com vómitos constantes, a recusar comer durante 15 dias, a minha primeira pergunta foi: “Será que lhe falta alguma vitamina? Será que precisa de carne ou peixe?”
Mas os médicos sempre disseram que não.
Infelizmente para nós, por ambos terem sido operados várias vezes ao coração, são inúmeras, inúmeras as equipas médicas e de enfermagem, que vos acompanham.
E felizmente, longe do que eu inicialmente contava, literalmente todas, tem dado apoio na continuação da alimentação vegetariana.
Todas têm reforçado os seus benefícios. Hospital S. Francisco Xavier, Hospital de Santa Maria, Hospital de Santa Cruz, Hospital Beatriz Ângelo…
Foram várias as vezes que nos primeiros internamentos, foram chamadas nutricionistas para falar comigo, por acharem que vocês podiam ser crianças em risco de má nutrição. Lembro-me por ex. de uma, que após me ouvir, me disse, fechando o dossier: “ok, não faço aqui nada. Estes rapazes são muito bem alimentados.”

A minha opção para vocês foi pensada e muito consciente.
Antes de vocês nascerem, eu já era vegetariana há 15 anos. Comia sem grandes cuidados e era uma má cozinheira, apesar de muito boa vontade (e mesmo assim, sempre saudável).
Quando optámos por vocês terem uma alimentação vegetariana, a responsabilidade foi totalmente diferente. Se adoecessem por minha causa, estaria a ser uma terrível e negligente mãe. Por isso, como em tudo o que faço, por vós, que seja de grande magnitude, investiguei muito. Para além das nutricionistas, li muito, juntei-me a grupos vegetarianos e aprendi.
Tornei-me uma cozinheira infalível (a necessidade aguça mesmo o engenho) e tenho um enorme orgulho em vos ouvir a pedirem sopa, feijão e couves em vez de batatas fritas e nuggets.

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Foto: Liana

Por isso, se podemos ser saudáveis (e sim, já há estudos dos efeitos a longo prazo) e respeitar a Natureza, o planeta, o ambiente e os outros seres, porque razão haveria eu de fazer outra escolha para os meus filhos?

Que continuemos juntos a plantar amor

Vossa
Mãe