Educação alternativa

No início da pandemia, deparei-me com as redes sociais inundadas de mães aflitas.
As escolas encerravam e as mães pediam ajuda porque “não sabiam o que fazer com os filhos todos os dias em casa”.
No “suposto fim” da pandemia, deparo-me com inúmeras publicações de mães desesperadas por despacharem os filhos para algum lado. Porque “já não os aguentam”, porque “precisam urgentemente da sua individualidade e da sua vida de volta”.

E eu vejo isto e ando angustiada…
Ando eu a pregar às pessoas que se preocupem com os seus idosos, ando eu a sensibilizar à preocupação com os animais… e afinal há mães, de famílias supostamente bem estruturadas, influencers com milhares de seguidores nas redes sociais, que não aguentam sequer estar com os próprios filhos 1 mês e meio, em casa.

Será só a mim, que esta realidade estranha, distorcida e potencialmente perigosa atinge o coração de tristeza?

Sou mãe a tempo inteiro, apesar de também trabalhar quase diariamente no meu alojamento local, apesar de fazer ensaios e concertos, dar workshops e trabalhar na agricultura e manutenção da quinta.

Mas salvo muito raras excepções, os meus filhos estão comigo, quase sempre.
E tal como as mães que se queixam nas redes, tenho dias em que já não os posso ver à frente.
Ser mãe é o trabalho mais difícil da minha vida!
Tenho dias de gritos, tenho dias de casa num caos, tenho dias de más refeições feitas à pressa, dias de birras que me parecem ridículas e extenuantes, tenho dias de cansaço extremo, e dias de ser má mãe!

Mas não tenho um único dia em que queira a minha vida de volta.
Aliás, não sei o que é querer ter a vida de volta. Esta é a minha vida! Escolhi ser mãe!

Se virmos as coisas pela matemática, o desejo de liberdade na maternidade é irónico, no mínimo.
Vivemos uma média de 80 anos.
Os nossos filhos vivem connosco cerca de 20 anos.
Mais concretamente, realmente dependentes de nós, vivem 10 anos. Mas façamos a média nos 15.
Se considerarmos que também nós não fomos independentes durante os nossos primeiros 15 anos, sobram 50 anos.
Significa que temos cerca de 50 (CINQUENTA) anos para viver “la vida loca” sem a dependência dos filhos.

Não chega????

Precisamos de hipotecar os  primeiros 10 anos deles, a empandeirá-los para as creches, para as escolas, para os ATLs, para as actividades extracurriculares, para as babysitters, para os avós, porque… precisamos desesperadamente da nossa liberdade?

1 mês e meio com os filhos em casa …

Estamos no meio de uma pandemia, em que o mundo inteiro parou de medo, e pelos vistos, nem isso é motivo suficiente para amarmos mais os nossos filhos e querermos tê-los junto a nós (aceitando que a maternidade é difícil!).

Caramba, como me aflige esta sociedade…

E não posso deixar de descobrir a enorme diferença que há entre ter filhos, e ser Mãe.

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Houve duas coisas em que a pandemia me fez parecer normal.

A primeira foi a comida, pois no inicio das compras para o estado de emergência, era aconselhado pelos nutricionistas comprar essencalmente frascos de leguminosas, cereais e vegetais. Comida vegan portanto…

A segunda foi de repente todos estarem em homeschooling como nós.

Prometi a alguns passar a publicar actividades para quem ao principio estava aflito com o “não saber o que fazer com os filhos”, mas depois desisti, precisamente por causa desta frase…

Mais do que impingir 500 actividades aos miúdos é descobrirem como voltar a ser uma família unida. Depois descobrir juntos as coisas que funcionam para a familia. Através de observação das crianças, através de tentativa e erro…
Quantas vezes já fiz actividades em que passo uma hora a preparar os materiais, para eles brincarem apenas 5 minutos e desligarem logo a seguir…
Quantas vezes actividades espontâneas e sem preparação prévia duram imenso tempo…
Quantas vezes o erro de hoje é o êxito de amanhã. E o sucesso de ontem, hoje provocou-lhes uma birra…

E mais ainda do que tudo isto, esta deveria ser a fase em que os miúdos teriam tempo para se descobrirem a si próprios (coisa que há muito o sistema escolar e pré-escolar limitaram profundamente).

Por isso, e porque o meu próprio tempo foi sobretudo de, ainda mais união com eles, não partilhei nenhuma actividade.

Mais de um mês depois, aqui fica o registo de algumas das coisas que temos andado a fazer.

Plantámos (e sentimo-nos muito, muito abençoados por o poder fazer)

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Pintámos (em vários sítios…)

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Aprendemos números

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Aprendemos ecosistemas e seus habitantes animais

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Aprendemos letras

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Cozinhámos e fomos padeiros

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Aprendemos forças e gravidade

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E o ciclo da água

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Construímos brinquedos, com coisas velhas que temos pela quinta.

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das pernas de uma velha mesa – uma baliza

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De uma prateleira de um móvel velho – um jogo dos elásticos

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De molduras antigas e um pedaço de acrílico – Montessori sand boxes

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Aprendemos texturas, formas, contrastes…

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Fizemos hortas do Pedrito Coelho

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Aprendemos música com jogos de ritmos

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Pintámos Van Gogh ao som de Beethoven

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Aprendemos mais sobre o corpo humano

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Vimos a Mary Poppins, o Pedrito Coelho, o Era uma vez o Corpo Humano, a Carrinha Mágica e a Masha, o Cirque du Soleil e o Moving Art e um documentário sobre o envio do rover a Marte que nos fez reflectir mesmo muito sobre o significado de aprender com os erros. Passamos muitos dias sem ver televisão (excepto o noticiário).
E por ironia, vamos em dois dias de tele escola 🙂

Lemos muito, muito, muito. E ouvimos audio books.

Dançámos e jogámos os nossos benditos jogos de emoções e partilha de conversas.

Mas SOBRETUDO chorámos, stressámos, tivémos breakdowns, zangas e… risos, muitos, muitos risos, e muita, muita ternura.

Porque, muito mais do que as aprendizagens, que às vezes resultam, às vezes não, é dos sentimentos, que é feito o amor!

Vossa
Mãe

Falemos de acordos.
O que aprendi é que nunca é demasiado cedo para começar a ensiná-los e a praticá-los.

Sabem aquelas birras gigantes para sair do parque infantil, para pararem uma barulheira quando precisamos de acabar um trabalho, para devolverem um brinquedo ao irmão, para virem para a mesa…?

Então é assim, vou directa ao assunto, não adianta nada chamar 500 vezes, tentar que tenham empatia pelo nosso desespero, ralhar, gritar…
Nada.
Muito provavelmente o resultado vai ser que nos ignorem ainda mais, ou que comecem eles próprios a sentir e a replicar o nosso stress. Com a consequente bola de neve que isso faz.
É verdade que eles são pequeninos (os meus têm 3 anos), mas acreditem que já sabem muito bem o que querem e muitas, muitas vezes, o que eles querem naquele momento, não é nada coincidente com aquilo que nós queremos. E… verdade seja dita, porque é que eles têm de parar de brincar no horário que eu imponho para comer?

Por outro lado, não me dá jeito nenhum, ter a vida ao sabor da maré das suas vontades.

Então por aqui, desenvolvemos as seguintes estratégias:

  • Respeitá-los (acima de tudo, esta é a palavra chave)
  • Avisá-los do que os espera, com alguma antecedência
  • Comunicar quando não estamos de acordo
  • Fazer um acordo

 

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Photo: Cátia Sousa

A primeira vez que a eficácia dos acordos me atingiu, foi na hora de dormir.
Tenho 2 filhos. Gémeos. A hora de dormir nunca foi a situação mais calma cá de casa. Um cantava, o outro chateava-se porque queria dormir, um batia com a mão na parede, o outro começava a levantar-se… e por aí fora.
As minhas estratégias foram muitas:
– a pacífica: “amor, está na hora de dormir, agora não podemos fazer essas coisas, tens de fechar os olhos para o soninho vir…”
– a empática: “o teu irmão quer dormir, eu também quero ir para a cama, vamos respeitar…”
– a nada empática…: “escuta, queremos dormir, se não páras e não tens sono, tens de sair do quarto” (sendo que o resto da casa estará escuro)
Conseguem compreender para onde isto se dirige, certo?…
Resultados? Uma vez ou outra, qualquer uma das três, ou outras, terá funcionado. Mas recorrentemente? Não. De todo.

O resultado era essencialmente uma mãe frustrada, a achar que não consigo que os meus filhos me respeitem (muito diferente de “que me obedeçam”, que não é uma aspiração minha).

A determinada altura, devo ter tentado a frase mágica:
– Quantas vezes mais precisas de fazer isso? Uma, duas?
Algum terá inocentemente dito duas e assim foi. Terá cantado, saltado na cama ou gritado alto, duas vezes contadas em voz alta, por mim.
“Pronto filho, obrigada por teres parado” (mesmo que ainda não o tenha feito).

Qual é o efeito disto?
O meu filho sentiu-se ouvido na sua necessidade (por absurda e stressante que seja para nós) e teve independência para ser ele a controlá-la.
Esta dádiva de lhes dar o comando da situação é muito importante para eles.

Se repararem bem, as suas curtas vidas são uma longuíssima enciclopédia de nãos.
E convenhamos que, mesmo para nós, uma vasta série de nãos é uma vasta fonte de stress.

O acordo vem equilibrar a balança.
Há coisas de que não abro mão e sou eu que decido (enquanto eles anda estão em aprendizagem): a segurança, a educação para com os outros, o respeito pela vida…
Há coisas em que lhes posso dar uma pequena vantagem, que os faz serem mais confiantes e sentirem-se mais em pé de igualdade comigo. E sim, para mim isto é importante.  É importante que eles se sintam com o mesmo valor e direitos que eu.
Acredito que se me virem a respeitá-los desde crianças, façam o mesmo comigo quando forem mais velhos.

Mas o acordo faz também com que aprendam que nem tudo gira à volta dos seus desejos e tempos, e às vezes é preciso fazermos concessões em prol do bem estar ou desejos das outras pessoas. E isto, para mim, também é uma aprendizagem muito importante.
Já conheci alguns adultos que ainda não aprenderam isto…

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Photo: Cátia Sousa

Assim sendo, deixa alguns exemplos de algumas situações específicas que acredito que todos passem:

Parque Infantil (ou casa de amigos, ou loja de brinquedos)

– 5 minutos antes de eu me querer efectivamente ir embora, vou avisá-los:
“Amores, daqui a pouco tempo temos de ir embora, porque ….(temos de ir comer, o pai está a chegar, blablabla). Podem andar mais um bocadinho e depois vamos”
– 2 ou 3 minutos antes (sendo que os meus ainda não têm grande noção de tempo), vou dizer-lhes:
“Pronto, está na hora, quantas voltinhas queres fazer mais antes de irmos embora?”
Por norma dizem 2 ou 3, eu conto alto, para eles saberem a quantas estão, e no final do combinado, os meus miúdos saem pacificamente de qualquer lado.

Ir para a mesa

–  10 minutos antes vou dizer-lhes:
“Amores, o jantar está quase pronto, mais um bocadinho para brincar e depois vão lavar as mãos”
– 5 minutos antes:
“estou mesmo a acabar o jantar, quantas voltinhas ainda vais dar com esse tractor?”
– 2 minutos antes:
“já acabaste as voltinhas? o jantar vai para a mesa”

Não é tão pacífico quanto o sair de uma zona pública. Estão em casa, no seu canto de segurança, por isso, por vezes lá há um que fica a brincar e não quer vir jantar.
Mas por aqui, como já disse antes, respeitá-los, não significa não impôr regras.
A hora da refeição é para estarmos todos. Eu estive a cozinhar para a nossa equipa família, por isso é preciso valorizar o meu trabalho e o momento em família. Quem não vem para a mesa, quando a comida vai para a mesa, já não come.
E é um facto, houve um dia em que ficaram ambos sem almoçar.
Se foi fácil para mim? Não.
Mas expliquei-lhes com toda a calma, que a hora da refeição já tinha acabado. Eu tinha chamado e eles tinham escolhido brincar e não comer, portanto agora tinham de lidar com a consequência.
Uma birra de 1 hora e um lanche super reforçado depois, a verdade é que resultou.
Agora, o acordo que vos disse em cima, não contabilizando um atraso ou outro, que aqui não somos a tropa, funciona muito bem.

Ir às compras

Ir ás compras com crianças pode ser muito stressante. Nós temos os nossos objectivos e eles não estão nem para aí virados.
No supermercado (e nós gastamos um bocado de tempo porque compramos muita coisa a granel) o truque é usar muito bem os carrinhos de compras. Podem andar sentados, podem andar em pé, lá dentro, podem conduzi-los (sim, com supervisão e longos corredores). Mas sobretudo envolvê-los nas compras em si. São eles que vão buscar produtos, que põem os legumes nos sacos (de pano!), que dizem o número para pôr na balança (e às vezes que o marcam).

Mas quando as compras são roupas ou outros produtos do género, a coisa é mais complicada. Nós normalmente só vamos às lojas de roupa nos saldos, mas como decidimos ter pouca roupa e de qualidade para durar mais (para bem do Planeta e dos trabalhadores escravizados pela indústria da moda), a busca é um bocadinho mais demorada.
Nessa altura, chegam os acordos.
Escolhemos um sitio que tenha as lojas que nós precisamos, mas que também tenha 2 ou 3 opções de brincadeiras para eles. E o acordo é:
– Agora vamos a 3 lojas de roupa comprar o que a familia precisa e a seguir vamos à zona dos escorregas. Depois vamos a mais duas lojas e vamos às bolas. E assim sucessivamente.
Às vezes há lojas que já têm entretenimento para os pequenitos, como a Kiabi. Ou há lojas que mesmo não indo lá comprar nada regularmente, fazem as delicias dos pequenitos, como a dos Legos ou uma livraria com uma boa secção de criança.
Por aqui temos a sorte de eles não pedirem para comprar nada. Nunca os habituámos a isso, por isso não entrou no registo deles. Sabem que o dinheiro é importante para pagar a comida, a casa e o carro para nos deslocarmos. E que se houver dinheiro a mais, às vezes compramos uns miminhos para a familia, incluindo brinquedos. Mas não é uma prioridade nem habitual, por isso não é referência para eles.
De qualquer forma, o importante é cumprir o que se diz. Ir contando as lojas e lembrando que a seguir é o tempo de fazer o que eles desejam. E nesse tempo, não vale entrar e sair. Direitos são direitos e é importante que eles sintam que o tempo para fazer o que eles gostam também é válido e importante.

Continua a ser um processo cansativo (sacos e putos e tempo a passar… vá… não é uma boa combinação). Mas é um processo de respeito e aprendizagem. Funciona muito, muito bem.

Dar o brinquedo ao irmão

Esta foi a que mais custou, mas a que deu mais resultados, porque ultrapassou a esfera da relação pais/filhos para abranger também a relação fraternal.

Portanto, façam-me o favor de ler mentalmente, acompanhado de muitos gritos e muito choro:
– “Oh mãe, o mano roubou o binquedo”
– “O mano já tava a bincar há muito tempo”

Explicadas todas as técnicas de “primeiro pedes, roubar não, perdes a razão, também não gostavas que o mano te roubasse a ti, etc, etc, etc…”, a melhor técnica, foi a do acordo:

–  “Oh mãe, o mano já tá a bincar há muito tempo com o carro”
–  “Pergunta ao mano quanto tempo é que ele precisa de brincar mais, para depois partilhar contigo”
– “Tantas vezes” – responde com despeito, o detentor do objecto desejado
–  “Mas eu não queo, eu queo bincar agora” – grita o que não tem o brinquedo
–  “Amor, o mano gostava de brincar também com esse brinquedo, achas que gostavas de trocar com o que o mano tem, e depois podiam combinar quantas vezes brincam e  se quiserem trocam outra vez”
– “Mano, qués trocar o binquedo comigo?” – pergunta o desesperado, em soluços reprimidos (roubar é muito mais fácil…)
– “Só vou bincar mais 2 vezes e depois já tá, sim?” – acaba por responder sem custo o que não queria trocar.
E fica resolvido. A partir dessa frase, o outro já está contente, porque a vida já não é uma incerteza, já sabe o que o espera.

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Photo: Cátia Sousa

Às vezes nem há troca. Muitas vezes, ao fim de um longo ano de mediação, eu já nem me intrometo.
“Fala com o mano, cheguem a um acordo”.
E eles já fazem um acordo entre si. Por norma, o seu tempo de duração é uma mão cheia.
“Eu so vou bincar isto (mão cheia) e depois dou a ti, sim?”

Já vi um deles tentar entrar em acordo com uma menina sobre quantas voltas no triciclo ela daria, antes de lhe emprestar a ele.
A menina não sabia destes acordos e ia-lhe passando por cima 🙂
Ainda assim, mesmo que o acordo ainda não seja uma moeda de troca muito fluente entre os pares deles, eu acho importante que eles saibam praticar esta atitude tão importante nas relações humanas.
Saber reivindicar os seus direitos enquanto se tenta respeitar os direitos dos outros. Aprender a fazer cedências. Entrar em acordo.

Quanta diplomacia deste género está em falta em muitos governos no nosso globo…?

A educação é sem dúvida uma experiência laboratorial… eu, definitivamente, não sei o que está certo ou errado. Só faço o meu melhor. E espero que estas dicas vos ajudem, em alguma altura mais conturbada.

Que plantemos amor!

Finalmente consigo responder às perguntas que me têm enviado-
Que alimentos devemos tomar para nos fortalecermos?

Aqui ficam as soluções da nossa família.
Cá por casa, a saúde respeita-se.

1- Em primeiro lugar, não comemos carne, nem peixe, nem lacticínios o que já nos deixa de fora de uma boa dose de químicos e antibióticos.

2 – Depois tentamos comprar coisas biológicas, sempre que possível, e o que não é possível, lavamos muito bem.
Uma solução de sal e água (1 para 9) parece ser extremamente eficaz na redução de químicos nos vegetais e fruta.
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3 – Depois apostamos na prevenção.
Mexer na terra e apanhar as bactérias boas (esquecidas no nosso mundo sobrehigienizado) e andar ao ar livre. Muito, muito, muito. (Chuvinha miudinha e saltos nas poças incluídos)

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4 – Usar alguns alimentos que ajudam a fortalecer e imunizar o nosso sistema.
Assim, quando chega o Outono, por aqui, para evitar as vacinas anti-gripe, começo logo a colocar curcuma e gengibre na comida.
No entanto, este ano, tenho um aliado novo.
Há um produto biológico, de ingredientes naturais, que engloba uma série de anti-inflamatórios naturais.
Chama-se Golden Milk e tem curcuma, canela, pimenta e gengibre e é só pôr uma colherzinha no leite e “já está”, como dizem os meus filhos. Temos bebido todas as manhãs. O meu, numa caneca muito especial, pintada pela minha avó…
E neste dia o leite era de avelãs. Caseiro.

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Também apostamos no alho, cacau (sem açúcar), tomilho, aipo…
São muitos os alimentos com propriedades anti-inflamatórias.

5 – No entanto, de vez em quando, lá acontece, o nariz começa a pingar, às vezes a garganta a doer. Nessa altura passamos ao chá em doses industriais.
Limão, gengibre, cravinho e canela.
Mais uns vapores e lavagens do nariz e com os miúdos resulta quase sempre e a mim ajuda-me imenso.

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6 – Se mesmo, assim, os sintomas não passarem, é tempo de agir. Com anti-inflamatórios?
Não, ainda não.
Aqui passamos às bolinhas da homeopatia com o Dr. Nuno Oliveira.
Ou à acupunctura com a Dra. Joana Teixeira.

Só depois passaríamos aos químicos…
Mas a verdade, é que os meus miúdos, pés sempre descalços, pouco agasalhados, sempre destapados a dormir, há quase 2 anos que não tomam um anti-inflamatório. E muito menos um antibiótico.

Por aqui resulta e eu sinto-me realmente feliz e orgulhosa.
Como nada disto tem efeitos adversos como os dos medicamentos, que tal tentarem também?

Contem-nos as vossas mezinhas!
E plantemos amor.

Carta aos meus filhos sobre o tipo de educação escolhida.

Ser Mãe, é estar consciente da educação que vos dou.
Ser Mãe, é estar consciente de quem eu sou.
Porque eu sou o primeiro modelo que vocês irão seguir.

Céus, como é difícil e fascinante.

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Questionar todos os dogmas adquiridos, renunciar a muitas das receitas tradicionais de comportamento, abrir mão de chapas 5 milagrosas… porque a ideia é muito mais profunda que simples resultados imediatos…

Ser mãe consciente. Implica o quê?

Não é fácil enumerar as pedras basilares da parentalidade consciente, mas talvez comece por uma palavra chave:

Respeito – neste momento vocês ainda não têm 3 anos. E no entanto são sempre ouvidos nas decisões que vos dizem respeito, são sempre escutados mesmo nas birras que não fazem qualquer sentido para nós. Desde o dia do vosso nascimento, que sao seres de plenos direitos. Que têm necessidades, medos, e ate desejos exagerados.

Aqui em casa, não existem as frases: porque eu mando, porque eu disse que sim, porque eu é que sei.

O respeito que vos damos é proporcional ao respeito que esperamos de vós. Somos uma família. Uma família em que, desde que em respeito mútuo, todos temos o direito de tentarmos satisfazer as nossas necessidades, básicas ou supérfluas. E em que a única coisa que distingue pais e filhos, para além do tamanho, é a maior experiência de vida dos mais velhos, que permite ter mais conhecimentos.

Um não, não é um não, só porque eu posso, porque sou maior que tu, porque sou tua mãe. Um não existe, quando eu constatei, depois de avaliar conscientemente, que o sim será perigoso ou inconveniente para ti ou para os outros. E isso tem de ser explicado.
E às vezes é cansativo. Sobretudo quando é à trigésima vez…

Mas é assim que te mostro o meu respeito por ti.

É assim que te mostro que te ouvi, ponderei se te podia dizer um sim, gostaria de te dizer um sim para te agradar, mas o limite imposto pela minha experiência de vida, diz-me que o não é o melhor para ti, mesmo que não te pareça por agora.

É assim que também espero que me respeites de igual modo. Que não me fales mal, só porque sim, que não me desprezes só porque te apetece. No futuro, claro, quando a tua dependência de mim já não for necessária…

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Quando falo sobre a educação que vos dou, há muitas dúvidas sobre a questão da imposição dos limites, das regras.

Cá por casa, abunda a coerência. Um não, se bem fundamentado, é um não até daqui a 100 anos. E podem fazer as birras que quiserem, que não vai mudar.

Simplesmente o não, é dito talvez contigo ao colo, seguramente falado ao teu nível, para que eu não esteja num plano superior. É dito com carinho e compreensão pelo que tu estarás a sentir. Estarás triste e eu quero que saibas que estou aqui para ti.

Não podes fazer o que querias, mas estou aqui para ti. Tens aqui um abraço amigo para acalmares a tua dor.

Eu sei que para ti, neste momento, o brinquedo que o mano te tirou, é tão importante como o meu emprego. Que o não poderes ir ao parque infantil é tão importante como a minha viagem de férias cancelada.
O valor é diferente. A importância é igual. E é por isso que eu acho importante respeitar o que tu sentes, não menosprezar a tua frustração, deixar-te aprender a lidar com ela, e deixar claro, que mesmo que tenha sido eu a dizer-te que não, sou tua amiga.

“Precisas de um abraço?”

Podes falar comigo. Dou-te o direito de, desde que me trates com respeito, poderes dizer que estás zangado comigo, triste comigo. É a oportunidade que tenho para te explicar as minhas razões, escutar as tuas. Às vezes também eu estarei triste (até convosco) ou cansada (o que turva tanto as boas razões…). Dir-to-ei.

Não te posso nem quero bater (que exemplo te daria eu?), mas posso estar zangada contigo. Falaremos. E quando não queres, aguardo que te acalmes sozinho. Dou-te o teu espaço , que às vezes até é de orgulho ferido, e não te pressiono, mas deixo claro que é importante falarmos a seguir.

Aprendermos um com o outro. Aceitarmos que nem sempre estaremos de acordo, e que não há problema algum nisso.

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Para mim é importante deixar-te fazer birras. Deixar-te chorar e gritar, no sítio onde tu podes ser tu mesmo. Connosco. É agora que estás rodeado de segurança que podes aprender a ultrapassar as frustrações. Talvez assim, no teu futuro, as frustrações não passem de pequenos percalços ultrapassáveis.
Mas também é importante mostrar-te a questão do espaço do outro.

Se uma birra está a interromper o sono do mano, o meu trabalho, ou se é audível por toda a casa e fura a cabeça, pergunto-te se precisas da minha ajuda  para te acalmar. Se dizes que não, convido-te a sair.

Tens o direito de gritar à tua vontade, não tens o direito de incomodar os outros. “Precisas de ir gritar para a rua?”
Na porta da rua, podes dar largas à tua raiva e gritar o que te apetecer, sendo que moramos no meio do campo… Passado meio minuto estás de volta.
“Já acalmei, podemos falar”- dizes tu.

E eu fico tão orgulhosa…

Quero que confiem em mim. Não vos minto nunca. Desejo do fundo do coração nunca vos mentir. E espero com isso ser um exemplo para que nunca tenham a necessidade de me mentir a mim, nem a ninguém.

Cumpro sempre o que digo. Se nao der, explicar-vos-ei porquê e tento fazê-lo noutra  altura ou compensar com outra coisa parecida. Sendo que as compensações cá por casa, nunca são um brinquedo novo, mas antes um passeio ao rio, 15 minutos a brincar  aos carrinhos, 2 corridas para lá e para cá…

E sabes, mesmo que já não se lembrem do que vos prometi, eu vou cumprir.
É mesmo importante para mim ser essa pessoa em quem se pode confiar. E é importante sentir-me um exemplo do que gostava que vocês fossem. Alguém, tão raro hoje, em quem se pode confiar.

Tudo isto rasga e molda a minha forma de ser. Tentar ser melhor, tentar ser um bom exemplo para vocês é finalmente ter a coragem de me reconstruir à imagem do que sempre desejei ser. 

Sabes que eu nem sempre estarei certa? Treinamos para que mo possam alertar.
Quero aprender convosco.

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Sabem que já aprendo tanto convosco?

Quando vos ensino estas técnicas de auto-conhecimento das emoções, de auto-controlo em relação ao espaço e vontade dos outros, estou a fazer os possíveis por saber fazer o mesmo nas outras facetas da minha vida.

Quando tenho de recusar a mim própria a vontade de facilitar a coisa, mandar dois gritos e por-vos em ordem, e em vez disso faço de calma moderadora pela milésima vez, estou eu própria a aprender a controlar-me.

Quando questiono as formas tradicionais de educação que aprendi e tento fazer as coisas de forma mais pensada, mais consciente, mais correcta, sinto-me a contribuir para um sociedade em que os conflitos podem ser resolvidos com compreensão.

Muitas vezes, há a ideia utópica de que filhos criados desta maneira, devem ser crianças muito calmas, muito educadas, muito certinhas… Não sei dos outros criados desta maneira, nem entro em comparações em nada da vossa vida.

Mas sei que vocês fazem muitas birras, esperneiam ocasionalmente, levantam a voz quando estão mesmo chateados, e já duas vezes tentaram levantar a mão num acesso de expressão física de total desagrado.

Lá está, para mim, não bater, é um limite muito claro, absolutamente inquestionável. Seria mais fácil reagir com uma palmada de volta. Muito mais efectivo a curto prazo. Ou mesmo a longo prazo: “Não faço, porque senão também levo”…

E que raio de coerência estaria a passar-vos?
“Tu não podes bater.” Mas eu teria batido… Qual a mensagem?
Só os mais fortes podem bater?
Só os pais, porque estão no comando (a célebre palmada educativa…)?

E deixar ao acaso do destino…

Quando forem adultos, logo se vê quem comandam vocês (uma empresa, um país…), e como o farão…
Quando eu envelhecer e vocês forem mais fortes do que eu, logo se vê como reagirão às minhas birras de velha, parecidas às vossas de criança…

Um jogo de espiral inesperado e perigoso.
Não! Rejeito e não acredito nisto!
É importante que sintas, que bater numa pessoa mais velha é inadmissível.
Dir-to-ei do meu jeito mais firme e assertivo:
“Eu não deixo que tu me batas”, mas fa-lo-ei lembrando-me que essa parvoíce te deu por alguma razão.

Terei estado ausente nos últimos dias?
Terei falhado contigo de alguma maneira?
Vou tentar compreender essa razão. Vou tentar ajudar-te a ultrapassá-la.
Na próxima vez que te sintas assim, talvez me procures para te ajudar, antes de te dar para a parvoíce…

Mas assim é, para já são crianças como as outras que vejo.
Nada perfeitas, cheias de maravilhas e defeitos.
A deixar-me encantada, esgotada, honrada…amada…

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Eu não estou a tentar criar-vos crianças perfeitas, de resultados impecáveis e previsíveis. Estou a tentar criar raízes. Profundas raízes de respeito e amor entre nós, e que espero depois se multipliquem ao longo do vosso caminho na vida.

Na esperança de que a sociedade seja como a Natureza.
Sabendo que é apenas uma semente que gera as raízes. E que as raizes serão sempre a base das mais frondosas árvores.

Sou-vos tão eternamente grata por me ensinarem a transformar-me.
Estou no caminho. Apaixonada por todos os bons e maus momentos. Na esperança de vos ajudar a seguirem, sem medos, o vosso eu ideal.

Plantemos sempre amor.
Vossa Mãe