vida

O que é uma família?
É um conjunto de pessoas ligadas pelo ADN?
É um conjunto de pessoas que habitam a mesma casa e se encontram ao pequeno-almoço e ao jantar, normalmente cansadas e stressadas do trabalho e da escola?
São dois progenitores cujas respectivas crianças passam mais tempo criadas por outros do que por eles?
 
O que é uma família?
 
Por aqui, o conceito de família é muito peculiar…
Cresci sem pai presente, fui criada por mãe e avó, mas tive outra mãe a ajudar ao meu crescimento que não me era nada de sangue.
A que ainda hoje é minha “irmã” era uma amiga de escola, e os meus, hoje queridos, irmãos verdadeiros só os conheci já adulta.
Amo duas amigas de longuíssima data como se fossem família e há membros da família biológica de quem nos afastámos por não respeitarem espaço nem opções…
 
Amo a minha família, escolhida por mim, feita de retalhos adoptivos, feita de relações de grande verdade, sem obrigações e sem requerimentos.
 
Estamos porque queremos. Somos porque amamos.
 
O que é uma família?
Um homem e uma mulher sem tempo e paciência para criar os filhos ou aguentarem-nos sequer durante um mês e meio em casa durante uma pandemia, como temos visto nas redes sociais?
 
Ou dois homens ou duas mulheres, anatomicamente imperfeitos para criar família, que criam uma criança com amor extremo?
Ou pais adoptivos que cumprem a sua responsabilidade de amar sem medidas e sem restrições?
Ou uma casal separado que se torna feliz com a separação mas que não deixam nunca de ser pais a tempo inteiro e em conjunto?
Ou uma só mãe, como eu conheço, que faz limpezas, gerindo o seu horário, quando poderia ter qualquer outro trabalho, para poder ter mais tempo com a sua filha?
Ou um grupo de amigos verdadeiros, mesmo sem crianças envolvidas, que se apoiam no bem e no mal, na saúde e na doença?
 
O que é uma família?
 
Para mim é claro.
Uma família é respeito, verdade e amor.
Sem cedências para nenhum destes três aspectos.
Se houver crianças, então uma família tem de ser respeito, verdade, amor e tempo!
O tempo de poder Ser Família e servir de modelo ao que é Ser Família.
 
Quem encontrar isto na família de sangue, magnifico.
Quem encontrar noutros corações quaisquer, magnífico na mesma.
 
Um viva a todas as famílias que sentem o que é ser Família, sem amarras de conceitos pré-definidos, mas com verdadeiros laços de amor!
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No início da pandemia, deparei-me com as redes sociais inundadas de mães aflitas.
As escolas encerravam e as mães pediam ajuda porque “não sabiam o que fazer com os filhos todos os dias em casa”.
No “suposto fim” da pandemia, deparo-me com inúmeras publicações de mães desesperadas por despacharem os filhos para algum lado. Porque “já não os aguentam”, porque “precisam urgentemente da sua individualidade e da sua vida de volta”.

E eu vejo isto e ando angustiada…
Ando eu a pregar às pessoas que se preocupem com os seus idosos, ando eu a sensibilizar à preocupação com os animais… e afinal há mães, de famílias supostamente bem estruturadas, influencers com milhares de seguidores nas redes sociais, que não aguentam sequer estar com os próprios filhos 1 mês e meio, em casa.

Será só a mim, que esta realidade estranha, distorcida e potencialmente perigosa atinge o coração de tristeza?

Sou mãe a tempo inteiro, apesar de também trabalhar quase diariamente no meu alojamento local, apesar de fazer ensaios e concertos, dar workshops e trabalhar na agricultura e manutenção da quinta.

Mas salvo muito raras excepções, os meus filhos estão comigo, quase sempre.
E tal como as mães que se queixam nas redes, tenho dias em que já não os posso ver à frente.
Ser mãe é o trabalho mais difícil da minha vida!
Tenho dias de gritos, tenho dias de casa num caos, tenho dias de más refeições feitas à pressa, dias de birras que me parecem ridículas e extenuantes, tenho dias de cansaço extremo, e dias de ser má mãe!

Mas não tenho um único dia em que queira a minha vida de volta.
Aliás, não sei o que é querer ter a vida de volta. Esta é a minha vida! Escolhi ser mãe!

Se virmos as coisas pela matemática, o desejo de liberdade na maternidade é irónico, no mínimo.
Vivemos uma média de 80 anos.
Os nossos filhos vivem connosco cerca de 20 anos.
Mais concretamente, realmente dependentes de nós, vivem 10 anos. Mas façamos a média nos 15.
Se considerarmos que também nós não fomos independentes durante os nossos primeiros 15 anos, sobram 50 anos.
Significa que temos cerca de 50 (CINQUENTA) anos para viver “la vida loca” sem a dependência dos filhos.

Não chega????

Precisamos de hipotecar os  primeiros 10 anos deles, a empandeirá-los para as creches, para as escolas, para os ATLs, para as actividades extracurriculares, para as babysitters, para os avós, porque… precisamos desesperadamente da nossa liberdade?

1 mês e meio com os filhos em casa …

Estamos no meio de uma pandemia, em que o mundo inteiro parou de medo, e pelos vistos, nem isso é motivo suficiente para amarmos mais os nossos filhos e querermos tê-los junto a nós (aceitando que a maternidade é difícil!).

Caramba, como me aflige esta sociedade…

E não posso deixar de descobrir a enorme diferença que há entre ter filhos, e ser Mãe.

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Tenho saudades. De ver o mar e o pôr do sol nas ondas.
De sair quando quero, e de abraçar os amigos.
Tenho saudades de ter mais certezas sobre o meu futuro próximo. De saber que ia ter trabalho e rendimentos suficientes.
Mas nada disso me põe em ansias de ir para a rua neste momento ou tão rapidamente quanto possível.

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Acho graça quando falam de que estamos a ganhar. A quem, ao quê? Porque é que tudo é uma competição?..
“ganhou ao cancro”, “estamos a ganhar ao vírus”, “venceu a morte…”
Como se alguém vencesse a morte…
O meu filho, sobreviveu a uma cirurgia de 6 horas ao coração, com 10 dias de idade (e às outras que se seguiram).
Lembro-me de na altura ter pensado que ele tinha pedido à morte, que nos diziam quase certa, para esperar. E ainda hoje eu peço que ela possa esperar até ele ser muito, muito velhinho…
E com este pedido, vivemos. Vivemos ainda mais.
Mas com a humildade de que não somos superiores nem vencedores. Apenas parte de um ciclo que não controlamos.

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É que ninguém vence a morte que já nos rodeia.
Ninguém ganha às dores que nos acompanharão depois do isolamento.
Aprenderemos a ultrapassá-las. A viver com elas. A viver ainda mais presentes e mais gratos depois delas.
Tudo isso é possível e desejável.

Mas porquê falar em ganhar? Porquê continuar o ciclo da conversa da guerra, quando podemos falar do poder do amor?

Eu também acredito que não nos podemos fechar para sempre. Que seria de nós?
Também acredito que teremos de aprender a viver com (mais) um vírus à solta.

Mas ainda não é o tempo de sairmos à rua como se nada se tivesse passado e como se tudo não continuasse por aqui.

Sei bem, que no fim disto, seremos ainda mais falidos que infectados.
Mas isso não pode ser desculpa para enviar os soldados para a frente da batalha, contando ganhar uma guerra que na verdade não existe, porque não a controlamos.

Não é tempo de falar em ganhar, quando até agora perdemos tantos.

É tempo de pensar globalmente como ajudar quem não tem recursos para fazer face a mais um tempo resguardados.

É tempo de pensarmos, mas pensar mesmo, que se o dinheiro não cresce nas árvores, nem é um recurso finito não renovável, que se o dinheiro é uma invenção feita pelo homem… que o homem, que tanto preza o dinheiro, pode sempre fazer mais a qualquer momento (tal como faz para injectar na banca falida), e distribui-lo, realmente distribui-lo, por todos. Para colmatar necessidades básicas e fossos de injustiça gigantes que existem há muito e não vêm só do Covid 19.

Aí já não teríamos de falar em guerras, nem competição, nem vencedores…

Eu, que não sei fazer dinheiro, penso em permacultura (agricultura orgânica e comunitária) como forma de ajudar à autosubsistência da minha futura comunidade. Penso em vegetarianismo para fazermos parte de ecossistemas saudáveis e duradouros. Penso na arte como símbolo de partilha e inspiração.

Mas não penso em sair para já.
Porque prezo a minha parte de empatia e humanidade para com a saúde de todos.

Em que soluções pensam vocês?

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📷Patrícia Resende

Houve duas coisas em que a pandemia me fez parecer normal.

A primeira foi a comida, pois no inicio das compras para o estado de emergência, era aconselhado pelos nutricionistas comprar essencalmente frascos de leguminosas, cereais e vegetais. Comida vegan portanto…

A segunda foi de repente todos estarem em homeschooling como nós.

Prometi a alguns passar a publicar actividades para quem ao principio estava aflito com o “não saber o que fazer com os filhos”, mas depois desisti, precisamente por causa desta frase…

Mais do que impingir 500 actividades aos miúdos é descobrirem como voltar a ser uma família unida. Depois descobrir juntos as coisas que funcionam para a familia. Através de observação das crianças, através de tentativa e erro…
Quantas vezes já fiz actividades em que passo uma hora a preparar os materiais, para eles brincarem apenas 5 minutos e desligarem logo a seguir…
Quantas vezes actividades espontâneas e sem preparação prévia duram imenso tempo…
Quantas vezes o erro de hoje é o êxito de amanhã. E o sucesso de ontem, hoje provocou-lhes uma birra…

E mais ainda do que tudo isto, esta deveria ser a fase em que os miúdos teriam tempo para se descobrirem a si próprios (coisa que há muito o sistema escolar e pré-escolar limitaram profundamente).

Por isso, e porque o meu próprio tempo foi sobretudo de, ainda mais união com eles, não partilhei nenhuma actividade.

Mais de um mês depois, aqui fica o registo de algumas das coisas que temos andado a fazer.

Plantámos (e sentimo-nos muito, muito abençoados por o poder fazer)

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Pintámos (em vários sítios…)

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Aprendemos números

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Aprendemos ecosistemas e seus habitantes animais

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Aprendemos letras

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Cozinhámos e fomos padeiros

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Aprendemos forças e gravidade

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E o ciclo da água

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Construímos brinquedos, com coisas velhas que temos pela quinta.

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das pernas de uma velha mesa – uma baliza

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De uma prateleira de um móvel velho – um jogo dos elásticos

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De molduras antigas e um pedaço de acrílico – Montessori sand boxes

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Aprendemos texturas, formas, contrastes…

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Fizemos hortas do Pedrito Coelho

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Aprendemos música com jogos de ritmos

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Pintámos Van Gogh ao som de Beethoven

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Aprendemos mais sobre o corpo humano

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Vimos a Mary Poppins, o Pedrito Coelho, o Era uma vez o Corpo Humano, a Carrinha Mágica e a Masha, o Cirque du Soleil e o Moving Art e um documentário sobre o envio do rover a Marte que nos fez reflectir mesmo muito sobre o significado de aprender com os erros. Passamos muitos dias sem ver televisão (excepto o noticiário).
E por ironia, vamos em dois dias de tele escola 🙂

Lemos muito, muito, muito. E ouvimos audio books.

Dançámos e jogámos os nossos benditos jogos de emoções e partilha de conversas.

Mas SOBRETUDO chorámos, stressámos, tivémos breakdowns, zangas e… risos, muitos, muitos risos, e muita, muita ternura.

Porque, muito mais do que as aprendizagens, que às vezes resultam, às vezes não, é dos sentimentos, que é feito o amor!

Vossa
Mãe

“Vamos todos ficar bem.”
Penso que não há frase que me irrite mais neste momento…

Também me irrita a de que temos todos de estar em pânico, e que é crime “romantizar” o vírus.

Talvez eu esteja algures no meio termo.

Sei, que não vamos “todos” ficar bem, nem vai “tudo” ficar bem.
Há morte, traumas, stress e dores profundas a rodear-nos por todo o lado, que estarão lá para serem sarados, muito depois de nos deixarem sair à rua.

Por outro lado sei, que este momento, é o tempo certo para ter esperança, para idealizar um futuro comum, mesmo quando só temos dúvidas sobre os nossos futuros individuais.

Estou em isolamento há mais de um mês.
Apesar da incerteza dos nossos trabalhos futuros, estamos de certa forma tranquilos nas nossas tarefas na quinta e nas brincadeiras e ensino aos nossos filhos.

Mas estar “bem” não me impede de entender que o medo, a morte e a dor rodeiam o meu mundo. E a isso não posso ficar indiferente.

1 – Não vamos todos ficar bem! Dizer o contrário é negar a realidade que nos atingiu, e permitir que após o pânico, voltemos de imediato à nossa vida superficial e indiferente à vida do outro.

2 – Por outro lado, podemos e devemos ficar melhores do que fomos até agora. Saradas as inúmeras feridas que resultarem destes tempos, podemos assumir o controlo de tudo o que tem falhado na forma como conduzimos, e conduzem, as nossas vidas. E isso é possível!

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Debruço-me então sobre ambas as premissas.

Não vamos “todos” ficar bem quando há pessoas a morrer sozinhas sem o último abraço dos seus filhos, quando há crianças internadas que não podem ver os pais, sem entender sequer o porquê, quando o isolamento de alguns é feito em pânico e solidão, gerando traumas, stress e ansiedades que não se resolvem no dia em que isto acalmar.
Não vamos ficar “todos” bem, quando há médicos e enfermeiros e polícias e bombeiros a abdicar voluntária e conscientemente das suas famílias por tempos indeterminados, em meio de mágoas e medos profundos.
Quando há pessoas sem dinheiro para as compras básicas, porque perderam o emprego, sem previsão de quando voltarão a obter novos recursos.
Quando há vítimas de violência doméstica, mulheres, homens e crianças que estão neste momento ainda mais vulneráveis.

Quando há países ainda menos preparados que nós, ainda com menos recursos onde a fome já existe e a pandemia vai ser só o acelerar e aumentar de mortes já encomendadas.
Quando se avizinha uma crise económica de proporções épicas que levarão milhões à miséria.

Se entendemos todos que é difícil estarmos fechados sem poder abraçar os nossos e com menos comida que o habitual, é impensável imaginar o que fará um isolamento forçado no meio de famílias desestruturadas ou de comunidades miseráveis.

Não, não vamos todos ficar bem.
Dizê-lo e pensá-lo é, quando isto acalmar e depois dos primeiros abraços (que alguma coisas do que é importante havemos de ter entendido), ir a correr para os centros comerciais comprar coisas supérfluas, e para os longos dias de trabalho longe dos filhos e para as 10 actividades extra-curriculares para fazer miúdos com “curriculum”… mas sem amor.

É importante pensar no amanhã. É importante pensar que batemos no fundo.
É importantíssimo entender para onde queremos ir!

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O vírus Covid 19, e isto não é romantizar (!), deu-nos a oportunidade do começar quase do zero. Podia ter sido qualquer outra tragédia, mas escolheu-se esta e nesta, tudo o que não podia acontecer, aconteceu.
Tudo o que era impensável, fez-se.
Os aeroportos fecharam, grandes fábricas fecharam, compraram-se só as coisas que realmente fazem falta, as pessoas voltaram para casa e para os seus, os pais descobriram os filhos (muitos pela primeira vez), trabalhou-se a partir de casa, estudou-se a brincar, alterou-se o sentido das profissões importantes. Inverteu-se a relevância do estatuto, porque se é importante, e é, o médico, também o é o auxiliar, ou o operador de caixa do supermercado ou o colector do lixo.

Percebeu-se que a economia, e os temíveis mercados e juros e bolsas, não podem ser superiores à vida e à sobrevivência.

Percebeu-se que os investimentos deveriam ser na Saúde e não nos bancos.
E que a banca, nunca será humana com as nossas necessidades, e só por obrigação estatal nos dão alguma folga da sua ambição faminta.

Precisamos de mudar!

Ao longo destas semanas ter-nos-emos com certeza, irritado com os nossos filhos, cansado com os nossos filhos, mas estou segura de que, salvo algumas excepções de pais, teremos aprendido que é maravilhoso estar mais tempo com eles, que há tanto da sua personalidade que afinal não conhecíamos e que o amor cresce com a proximidade.

Ao longo destas semanas, teremos reparado que afinal não era urgente comprar as coisas supérfluas de que não necessitamos e que a prioridade afinal são as coisas básicas que nos dão conforto real.
Teremos entendido que o consumismo desenfreado, leva ao capitalismo selvagem?
(não nos esqueçamos das pessoas, quer em Sintra, ou na América a vender máscaras e alimentos em leiloes exorbitantes a quem der mais, sem qualquer sentido de compaixão nem entreajuda). É esse o ideal do capitalismo que ajudámos a fundar. É esse o tipo de sociedade que queremos continuar a ter?

E as saudades de um passeio por entre as árvores, de molhar os pés à beira mar, de ouvir os pássaros, de ver uma flor? Será agora que vamos valorizar o papel da Natureza nas nossas vidas? Será agora que optamos por ter espaço e tempo na nossa vida para fortalecer essa ligação?

Este vírus, e isto não é romantizar (!) mostrou-nos de uma forma muito mais suave o que nos espera se continuarmos a destruir o planeta.

Falando em vírus, o degelo das calotas polares, liberta vírus de animais mortos e congelados há milhares de anos, que não sabemos sequer o que são, nem como os combater (já aconteceu na Russia).

O aquecimento global provoca secas profundas. A agricultura tornar-se-á quase impossível. Irá existir escassez de alimentos a um nível extremo.

Recordam-se o que foi ir ao supermercado e encontrar prateleiras vazias? É esse o mundo que nos espera.

Com as secas vêm mais fogos, como já todos começámos a experienciar. Como vimos na Austrália, pessoas morrem, hospitais sobrelotados, supermercados vazios.

Com as secas, quando chover, a terra não absorverá a água, e aparecerão as cheias. Lembram-se de acontecer no Brasil? Pessoas morrem, hospitais sobrelotados, agricultura acaba, pessoas à fome.

Com as cheias, esgotos ficam ao ar livre, lixo e químicos são espalhados pelas águas ao longo das cidades.
Resultado? Bactérias, vírus! Tão maus ou piores que o Covid 19.
Hospitais sobrelotados, pessoas a morrer, escassez de alimentos e água potável para a população.

Não é um filme de ficção!

Imaginem o que teriam sentido se eu vos dissesse que o mundo ia parar à conta de um, um só, vírus desconhecido? Decerto achariam uma ficção?

E no entanto, os cientistas, avisaram várias vezes para que, um dia haveria de existir um vírus que causava uma pandemia e o mundo não estava preparado. Deram dicas e planos de trabalho.
O último encontro a nível mundial da OMS para discutir este aviso, foi em Novembro de 2019.
Juntaram-se grandes empresários e representantes de líderes mundiais para preparação para uma possível pandemia.

Preparámo-nos?
Estamos todos a sentir que não!

Cientistas estão a avisar há anos para os desastres decorrentes do aquecimento global.

Preparamo-nos?

O Covid 19, com toda a dor, e paragem do mundo e das pessoas, que dele decorreu, é uma brincadeira de crianças comparado com os que os cientistas avisam que aí vem.

Imaginem fogos, tsunamis, cheias e vírus perigosos e desconhecidos, a acontecer ao mesmo tempo em vários pontos do país e do globo.
Pessoas a morrer, hospitais sobrelotados, fome e doença sem precedentes.

Preparamo-nos?

Os líderes mundiais, nunca o quiseram fazer.
A economia! A economia não pode parar.

Mas parou…

Então este vírus e isto não é romantizar (!) está a dar-nos a hipótese de termos um vislumbre do que poderá ser a nossa vida e a vida dos nossos filhos se não agirmos.

Com o Covid 19, pela primeira vez, olhámos para os nossos vizinhos e preocupámo-nos com eles.
Pela primeira vez, organizámo-nos em pequenas comunidades para ajudarmos os mais vulneráveis.

Pela primeira vez, passámos tempo com os nossos filhos sem entregar a sua vida e educação a outros, 11 meses por ano.

Pela primeira vez, percebemos que podíamos trabalhar de uma outra forma, sem perder horas de vida no transito.

Pela primeira vez, compreendemos o que era realmente importante comprar e ter.
As coisas básicas.

Quando isto acalmar, vão dizer-nos que temos de trabalhar ainda mais para recuperar a economia perdida.
Vão dizer-nos que não poderão existir medidas ecológicas, para recuperar a economia perdida.

Queremos mesmo perder os vizinhos que agora conhecemos? Querermos mesmo voltar a perder os filhos que agora conhecemos? Queremos mesmo perder o nosso tempo de vida em filas de trânsito e trabalho a mais? Para quê? Para recuperar a economia e podermos compensar as nossas frustrações comprando coisas que já compreendemos que não nos fazem falta?

Este é o tempo de mudar! Nunca tivemos uma maior oportunidade.
É o tempo de, mesmo na incerteza dos nossos futuros individuais, delinearmos um futuro comum.

É tempo de cuidarmos da nossa saúde, recusando os alimentos nefastos cheios de açúcar e gordura e pesticidas, e exigir que parem os subsídios estatais a estes alimentos, tornando pelo contrário os alimentos saudáveis os mais acessíveis.

As grandes pandemias do último século foram causadas pela passagem de vírus de animais para pessoas. À custa de um desejo de carne, animais enjaulados, criados em condições críticas sanitárias e de espaço, um pouco por todo o mundo, causaram pandemias como a Sars (porcos), a Covid 19 (morcegos ou pangolins), a gripe suína na America, a gripe aviária (aves), doença das vacas loucas em Inglaterra, ou mesmo o HIV que teve origem em carne de chimpazé comida por humanos em África.

Pergunto, para além dos antibióticos injectados na carne, que ingerimos diariamente, e que debilitam o nosso sistema imunitário, há ainda este risco real de pandemias, valerá a pena?

O Covid 19, mata sobretudo (mas não só, não nos iludamos) as pessoas mais vulneráveis, com outras doenças como diabetes, insuficiência cardíaca, doenças respiratórias como asmas ou renites, hipertensão.
A maioria destas doenças tem origem na alimentação.

É tempo de exigirmos tratar a origem, não isolar o problema.

É tempo de cuidarmos da nossa educação, não deixando que as redes sociais e o voyeurismo da comunicação social nos mine com desinformação e manobras de diversão que nos afastam dos verdadeiros problemas.

É tempo de cuidar do planeta.
Simples assim. Porque se não cuidarmos, o cenário será muito pior do que agora.

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Eu não sinto o isolamento da mesma forma que muitos. Os meus filhos sempre estiveram em casa, não andavam na creche, pelo que nada é novo na nossa relação. Temos uma horta e muita Natureza à nossa volta. Resultado de uma longa procura e de muito, mesmo muito trabalho de recuperação ao longo dos anos. A minha pequena quintinha custou substancialmente menos do que um apartamento em Lisboa. Mas por estes dias é um enorme tesouro. Para mim, sempre o foi.

Mas se repararam, durante este texto, não disse uma única vez, quando esta crise acabar. Disse acalmar. É que não vai acabar.
Tal como nasceram novas medidas de vida após o 11 de Setembro, novas formas de controlo do ser humano irão nascer após esta pandemia.

Por ora são necessárias e acato-as, respeito-as e digo a todos pra as cumprir, sem segundos pensamentos.
Mas queremos mesmo que o distanciamento social, a falta de liberdade e escolhas façam parte do nosso futuro?

Temos dois caminhos quando esta crise acalmar.

Continuarmos a seguir o que nos dizem ser certo, com destino ao domínio, à separação e ao isolamento (sendo que há varias formas de isolamento).

Ou aproveitarmos esta possibilidade única de renascer, para assumirmos poder nas nossas vidas, com base na união, no renascimento de comunidades, no restauro de ligações perdidas, com a nossa família, com os nossos amigos, com a Terra.

Temos a possibilidade de voltar a viver como já há muito não fazíamos.

Qual será a nossa escolha?

Não costumo misturar aqui a minha vida de cantora…
Mas a verdade é que faz parte de mim. E este tema é demasiado pessoal para ficar de fora das nossas cartas

À minha avó Amélia.

Este é o meu novo single 💛

Velha Mãe tem o acre da dor e da solidão e o néctar da ternura e da serenidade.
Tem o ensinamento e a aprendizagem de reaprender o passado e envolver o futuro.
Fala-nos da velhice, mas abraça uma vida inteira de valores por mudar.
Velha Mãe é a interrogação sobre o que é essencial no trilho de cada um. Mesmo quando o caminho já se faz só, mas não menos imprescindível.
É uma apologia ao caminho efémero da vida, ao rumo que pretendemos na família, nos amigos, nos desconhecidos por quem fazemos algo humano, ou nos que fazem por nós…
Velha Mãe tem um poder árduo, mas delicado, de nos interrogar sobre nós e os que consideramos nossos, os que já partiram, os que nasceram há pouco… e leva-nos à reflexão sobre a nossa vida e as estradas que escolhemos.

Velha Mãe é um dos temas mais belos que já cantei e que me deixou as emoções em inquietude durante largos, largos meses.
Ajudou-me a aceitar e a reconhecer quem a minha avó, que me criou, foi para mim.
Ajudou-me a alicerçar que Mãe quero ser para os meus pequenos filhos.
Velha Mãe fala do meu caminho e do caminho de todos nós.

Aqui fica a minha Velha Mãe
Que seja para vós, o bálsamo e a benção que foi para mim.

– De que te queres mascarar no Carnaval?
– De princesa.
– Pode ser rei, que também usavam vestidos?
– Não, princesa.

Estes são os meus filhos, rapazes, felizes neste Carnaval.

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Confesso que a ideia não me foi fácil. Com todo o imenso despreconceito que achava ter, ainda assim a ideia de ter a sociedade a julgar e a avaliar os meus filhos falou mais alto por uns momentos.
Tentei na minha cabeça arranjar um bom argumento para os dissuadir. Mas não havia.

Eu tenho bons motivos para lhes dizer que não podem beber álcool, conduzir um carro, subir um muro alto sem protecção, andar no meio da estrada, ou mesmo desrespeitar as pessoas.
Mas o único argumento supostamente válido para lhes dizer que não podem vestir um vestido é porque há muitas pessoas que não vão gostar. Que mãe incapaz serei eu, se basear a minha educação no que as outras pessoas vão ou não gostar, em vez de pensar na felicidade deles.
Conheço tanta gente infeliz por fazer o que a sociedade quer, por agradar aos outros em vez de a si próprio.

Os meus pequeninos têm 4 anos, não sabem de géneros, nem de descriminações, nem de “preferências”.
Sabem que são meninos, por lhes ter ensinado que são anatomicamente diferentes das meninas. Sabem que são malucos por carros, gostam de jogar à bola e os vestidos da meia irmã são a coisa mais bonita de se vestir.

E eu, que hoje felizmente me pude divertir com eles num grupo seguro sem a célebre frase “mas os meninos não usam saias” , não sei o que serão os meus filhos amanhã, nem isso me ocupa o pensamento. O meu trabalho como mãe, é apoiá-los a encontrar e a valorizar momentos de felicidade. Esteja a felicidade numa profissão com pouco valor social, numa relação diferente, numa vida eremita no fim do mundo ou num vestido de princesa.
Porque é assim que vejo o amor. E eu sou Mãe. O amor é a minha profissão.

PS: esta partilha não é para mudar os que pensam de forma diferente, é para dizer a quem pensa de forma igual que não está sozinho

O nosso calendário de Natal, não tem chocolates (embora eles surjam espaçados ao longo do mês de dezembro).
O nosso calendário é feito com o propósito de nos lembrar a magia do Natal, que inclui muitos doces tradicionais sim, mas que é muito mais do que isso.
Baseada na palavra solidariedade mas sobretudo na palavra empatia.

Aqui não recebemos prendas do Pai Natal, nem escrevemos a pedir nada. Mas gostamos do Pai Natal e vivemos a fantasia por inteiro. Aprendemos com esta história, o contrário do pedir e do receber, aprendemos a gostar de dar, só com o intuito de fazer os outros felizes.
É essa a magia que encontramos no Pai Natal.

Ao longo do mês, imitando-o, temos muitas actividades de ofertas.
A nós próprios, que também é importante, mas sobretudo aos outros.

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Aqui ficam os meus papelinhos vintage que eu adorei fazer e acho que estão lindos 🙂
Mas aqui ficam sobretudo as ideias:

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Com massa de sal e farinha fizemos os nossos enfeites que servirão depois para por nos laços das prendas, como etiquetas.

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  • Oferecer Compaixão
    Dar cenouras aos coelhinhos selvagens. Há uma sensação gratificante em dar algo a quem sabemos que não irá dar de volta. Aqui vamos nós a distribuir cenouras pelo bosque fora, sem esperar que os coelhinhos nos ofereçam carrinhos ou legos. Simplesmente com o espirito de ajuda. Dias plenos.

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  • Oferecer criatividade
    Pintámos o nosso papel de embrulho com diferentes técnicas e foram umas horas bem divertidas.

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– Oferecer Amizade
Fazer as prendas para os amigos.
Este ano oferecemos porta-chaves para os adultos e laços e pulseiras para as meninas.
Eles fizeram os desenhos, que diminuí de tamanho na impressora e decorei com rendas, laços e cola quente.
Ficámos muito satisfeitos com o resultado final, tão personalizado e cheio do nosso amor.

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  • Oferecer Empatia
    Doar brinquedos a outros meninos.
    Eles estão habituados a ver os pais deixarem roupas e louças, que estejam a mais em casa, para serem doadas pela Junta de Freguesia. O conceito de passar aos outros o que temos a mais (ou comprar de outros em 2ª mão o que nos faz falta) já não é novo para eles. Mas é sempre diferente colocá-los a escolher os seus próprios pertences, nomeadamente o que lhes dá alegria diária como os brinquedos.
    E foi maravilhoso ver a facilidade que tiveram na partilha e como queriam anda dar mais do que eu estava à espera. Fiquei muito feliz com esta prova de que o exemplo ensina.

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Tenho muito, muito cuidado com o açúcar ao longo do ano, mas as férias, as festas de anos e o Natal estão reservados para o excesso.
Aqui um suculento chocolate quente e umas bolachas de gengibre e canela com muito sabor a Natal. Tudo vegan e saboroso.

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  • Oferecer Reconhecimento
    Fazer uma prenda para os bombeiros e levar.
    Por norma, estendemos o reconhecimento também à comunidade com prendinhas simbólicas feitas em casa, bolachinhas, broinhas, bombons… Levamos ao padeiro, ao senhor da oficina, ao senhor que corta o mato, aos vizinhos… pessoas que de uma forma ou outra tornam a nossa vida mais segura, mais fácil (ou mais saborosa).
    E como a gratidão gera sempre retorno, os bombeiros foram mostrar os carros e até ligar a sirene para deleite dos miúdos.

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  • Oferecer deslumbre
    Ir passear a Lisboa para ver as luzes de Natal.

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– Oferecer Memórias

Fazer as broinhas da avó Amélia

A avó Amélia é na verdade a bisavó deles, que eles já não conheceram, mas que continua a ser uma memória muito importante na nossa família.
Agora recordamo-la através dos sabores que nos deixou e agora sou eu e a minha mãe a ajudá-los a prepará-las.
Ao longo do mês juntamos também os bolinhos de limão da bisavó Adelina, que fazem com o pai.
As tradições de familia, em forma de receita veganizada, a tornarem-nos mais conscientes de que pertencemos a um clã, a uma pequena comunidade de entreajuda e de pertença através do amor e das recordações.

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– Oferecer Retorno
A Natureza dá-nos tanto, tanto, sem pedir nada em troca.
Desta vez homenageámos essa dádiva tão generosa.
Fomos plantar uma árvore autóctone, um carvalho, no meio da serra, sem dele esperar colher frutos ou sombra. Apenas dar, como consequência do muito que recebemos.

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  • Oferecer tradição
    Fazermos o nosso bolo rei é tradição lá em casa e fez com que o pai, que não gostava dos bolos das pastelarias o passasse a devorar.
    É sempre mágico partilhar momentos de farinha, enfeitar com frutos de cores vibrantes e esperar o resultado final que sai do forno.

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– Oferecer Diversão
No natal tentamos ir sempre a um carroussel. Sempre foi um objecto mágico para mim e agora ainda mais com eles fazendo parte daquele rodar e rodar e subir e descer, como a vida em ciclos permanentes de altos e baixos.

– Oferecer Partilha
Durante as nossas viagens de carro para a piscina ou supermercado, construímos todos juntos uma bela história de natal.
Foi um processo criativo e de entretenimento fantástico que resultou numa história muito baseada nas aventuras da nossa família, com um toque de pó de fadas. Que bela prenda para contar na noite de natal.

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Este ano, para além da história, houve um “concerto” e um “bailado” oferecido por eles. Tornou tudo tão mais lindo…

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  • Oferecer Magia
    No dia de Natal, neva sempre lá em casa. Uma máquina de neve por 80 euros foi a prenda de anos que ofereci a mim própria há uns anos atrás e de então para cá, construímos uma memória inigualável de acordar todos os dias 25 de Dezembro para uma manhã de neve.
    Este ano alguns amigos juntaram-se a nós, uma delas tao doida (ou mágica) como eu, que se mascara sempre de duende nesta data, e foi ainda mais divertido.

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A Oferta de Amor, foi dos momentos mais maravilhosos do natal, em que mesmo eles pequeninos, conseguiram identificar aquilo que mais apreciavam em nós e estar gratos por isso.
Foi um momento de tal forma puro e emotivo que nos levou às lágrimas.

Estas ofertas de uma calendário diferente, tornaram sem dúvida o nosso Natal mais feliz e compreensivo da sua verdadeira mensagem.

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Que continuemos a Plantar Amor.

Falemos de acordos.
O que aprendi é que nunca é demasiado cedo para começar a ensiná-los e a praticá-los.

Sabem aquelas birras gigantes para sair do parque infantil, para pararem uma barulheira quando precisamos de acabar um trabalho, para devolverem um brinquedo ao irmão, para virem para a mesa…?

Então é assim, vou directa ao assunto, não adianta nada chamar 500 vezes, tentar que tenham empatia pelo nosso desespero, ralhar, gritar…
Nada.
Muito provavelmente o resultado vai ser que nos ignorem ainda mais, ou que comecem eles próprios a sentir e a replicar o nosso stress. Com a consequente bola de neve que isso faz.
É verdade que eles são pequeninos (os meus têm 3 anos), mas acreditem que já sabem muito bem o que querem e muitas, muitas vezes, o que eles querem naquele momento, não é nada coincidente com aquilo que nós queremos. E… verdade seja dita, porque é que eles têm de parar de brincar no horário que eu imponho para comer?

Por outro lado, não me dá jeito nenhum, ter a vida ao sabor da maré das suas vontades.

Então por aqui, desenvolvemos as seguintes estratégias:

  • Respeitá-los (acima de tudo, esta é a palavra chave)
  • Avisá-los do que os espera, com alguma antecedência
  • Comunicar quando não estamos de acordo
  • Fazer um acordo

 

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Photo: Cátia Sousa

A primeira vez que a eficácia dos acordos me atingiu, foi na hora de dormir.
Tenho 2 filhos. Gémeos. A hora de dormir nunca foi a situação mais calma cá de casa. Um cantava, o outro chateava-se porque queria dormir, um batia com a mão na parede, o outro começava a levantar-se… e por aí fora.
As minhas estratégias foram muitas:
– a pacífica: “amor, está na hora de dormir, agora não podemos fazer essas coisas, tens de fechar os olhos para o soninho vir…”
– a empática: “o teu irmão quer dormir, eu também quero ir para a cama, vamos respeitar…”
– a nada empática…: “escuta, queremos dormir, se não páras e não tens sono, tens de sair do quarto” (sendo que o resto da casa estará escuro)
Conseguem compreender para onde isto se dirige, certo?…
Resultados? Uma vez ou outra, qualquer uma das três, ou outras, terá funcionado. Mas recorrentemente? Não. De todo.

O resultado era essencialmente uma mãe frustrada, a achar que não consigo que os meus filhos me respeitem (muito diferente de “que me obedeçam”, que não é uma aspiração minha).

A determinada altura, devo ter tentado a frase mágica:
– Quantas vezes mais precisas de fazer isso? Uma, duas?
Algum terá inocentemente dito duas e assim foi. Terá cantado, saltado na cama ou gritado alto, duas vezes contadas em voz alta, por mim.
“Pronto filho, obrigada por teres parado” (mesmo que ainda não o tenha feito).

Qual é o efeito disto?
O meu filho sentiu-se ouvido na sua necessidade (por absurda e stressante que seja para nós) e teve independência para ser ele a controlá-la.
Esta dádiva de lhes dar o comando da situação é muito importante para eles.

Se repararem bem, as suas curtas vidas são uma longuíssima enciclopédia de nãos.
E convenhamos que, mesmo para nós, uma vasta série de nãos é uma vasta fonte de stress.

O acordo vem equilibrar a balança.
Há coisas de que não abro mão e sou eu que decido (enquanto eles anda estão em aprendizagem): a segurança, a educação para com os outros, o respeito pela vida…
Há coisas em que lhes posso dar uma pequena vantagem, que os faz serem mais confiantes e sentirem-se mais em pé de igualdade comigo. E sim, para mim isto é importante.  É importante que eles se sintam com o mesmo valor e direitos que eu.
Acredito que se me virem a respeitá-los desde crianças, façam o mesmo comigo quando forem mais velhos.

Mas o acordo faz também com que aprendam que nem tudo gira à volta dos seus desejos e tempos, e às vezes é preciso fazermos concessões em prol do bem estar ou desejos das outras pessoas. E isto, para mim, também é uma aprendizagem muito importante.
Já conheci alguns adultos que ainda não aprenderam isto…

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Photo: Cátia Sousa

Assim sendo, deixa alguns exemplos de algumas situações específicas que acredito que todos passem:

Parque Infantil (ou casa de amigos, ou loja de brinquedos)

– 5 minutos antes de eu me querer efectivamente ir embora, vou avisá-los:
“Amores, daqui a pouco tempo temos de ir embora, porque ….(temos de ir comer, o pai está a chegar, blablabla). Podem andar mais um bocadinho e depois vamos”
– 2 ou 3 minutos antes (sendo que os meus ainda não têm grande noção de tempo), vou dizer-lhes:
“Pronto, está na hora, quantas voltinhas queres fazer mais antes de irmos embora?”
Por norma dizem 2 ou 3, eu conto alto, para eles saberem a quantas estão, e no final do combinado, os meus miúdos saem pacificamente de qualquer lado.

Ir para a mesa

–  10 minutos antes vou dizer-lhes:
“Amores, o jantar está quase pronto, mais um bocadinho para brincar e depois vão lavar as mãos”
– 5 minutos antes:
“estou mesmo a acabar o jantar, quantas voltinhas ainda vais dar com esse tractor?”
– 2 minutos antes:
“já acabaste as voltinhas? o jantar vai para a mesa”

Não é tão pacífico quanto o sair de uma zona pública. Estão em casa, no seu canto de segurança, por isso, por vezes lá há um que fica a brincar e não quer vir jantar.
Mas por aqui, como já disse antes, respeitá-los, não significa não impôr regras.
A hora da refeição é para estarmos todos. Eu estive a cozinhar para a nossa equipa família, por isso é preciso valorizar o meu trabalho e o momento em família. Quem não vem para a mesa, quando a comida vai para a mesa, já não come.
E é um facto, houve um dia em que ficaram ambos sem almoçar.
Se foi fácil para mim? Não.
Mas expliquei-lhes com toda a calma, que a hora da refeição já tinha acabado. Eu tinha chamado e eles tinham escolhido brincar e não comer, portanto agora tinham de lidar com a consequência.
Uma birra de 1 hora e um lanche super reforçado depois, a verdade é que resultou.
Agora, o acordo que vos disse em cima, não contabilizando um atraso ou outro, que aqui não somos a tropa, funciona muito bem.

Ir às compras

Ir ás compras com crianças pode ser muito stressante. Nós temos os nossos objectivos e eles não estão nem para aí virados.
No supermercado (e nós gastamos um bocado de tempo porque compramos muita coisa a granel) o truque é usar muito bem os carrinhos de compras. Podem andar sentados, podem andar em pé, lá dentro, podem conduzi-los (sim, com supervisão e longos corredores). Mas sobretudo envolvê-los nas compras em si. São eles que vão buscar produtos, que põem os legumes nos sacos (de pano!), que dizem o número para pôr na balança (e às vezes que o marcam).

Mas quando as compras são roupas ou outros produtos do género, a coisa é mais complicada. Nós normalmente só vamos às lojas de roupa nos saldos, mas como decidimos ter pouca roupa e de qualidade para durar mais (para bem do Planeta e dos trabalhadores escravizados pela indústria da moda), a busca é um bocadinho mais demorada.
Nessa altura, chegam os acordos.
Escolhemos um sitio que tenha as lojas que nós precisamos, mas que também tenha 2 ou 3 opções de brincadeiras para eles. E o acordo é:
– Agora vamos a 3 lojas de roupa comprar o que a familia precisa e a seguir vamos à zona dos escorregas. Depois vamos a mais duas lojas e vamos às bolas. E assim sucessivamente.
Às vezes há lojas que já têm entretenimento para os pequenitos, como a Kiabi. Ou há lojas que mesmo não indo lá comprar nada regularmente, fazem as delicias dos pequenitos, como a dos Legos ou uma livraria com uma boa secção de criança.
Por aqui temos a sorte de eles não pedirem para comprar nada. Nunca os habituámos a isso, por isso não entrou no registo deles. Sabem que o dinheiro é importante para pagar a comida, a casa e o carro para nos deslocarmos. E que se houver dinheiro a mais, às vezes compramos uns miminhos para a familia, incluindo brinquedos. Mas não é uma prioridade nem habitual, por isso não é referência para eles.
De qualquer forma, o importante é cumprir o que se diz. Ir contando as lojas e lembrando que a seguir é o tempo de fazer o que eles desejam. E nesse tempo, não vale entrar e sair. Direitos são direitos e é importante que eles sintam que o tempo para fazer o que eles gostam também é válido e importante.

Continua a ser um processo cansativo (sacos e putos e tempo a passar… vá… não é uma boa combinação). Mas é um processo de respeito e aprendizagem. Funciona muito, muito bem.

Dar o brinquedo ao irmão

Esta foi a que mais custou, mas a que deu mais resultados, porque ultrapassou a esfera da relação pais/filhos para abranger também a relação fraternal.

Portanto, façam-me o favor de ler mentalmente, acompanhado de muitos gritos e muito choro:
– “Oh mãe, o mano roubou o binquedo”
– “O mano já tava a bincar há muito tempo”

Explicadas todas as técnicas de “primeiro pedes, roubar não, perdes a razão, também não gostavas que o mano te roubasse a ti, etc, etc, etc…”, a melhor técnica, foi a do acordo:

–  “Oh mãe, o mano já tá a bincar há muito tempo com o carro”
–  “Pergunta ao mano quanto tempo é que ele precisa de brincar mais, para depois partilhar contigo”
– “Tantas vezes” – responde com despeito, o detentor do objecto desejado
–  “Mas eu não queo, eu queo bincar agora” – grita o que não tem o brinquedo
–  “Amor, o mano gostava de brincar também com esse brinquedo, achas que gostavas de trocar com o que o mano tem, e depois podiam combinar quantas vezes brincam e  se quiserem trocam outra vez”
– “Mano, qués trocar o binquedo comigo?” – pergunta o desesperado, em soluços reprimidos (roubar é muito mais fácil…)
– “Só vou bincar mais 2 vezes e depois já tá, sim?” – acaba por responder sem custo o que não queria trocar.
E fica resolvido. A partir dessa frase, o outro já está contente, porque a vida já não é uma incerteza, já sabe o que o espera.

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Photo: Cátia Sousa

Às vezes nem há troca. Muitas vezes, ao fim de um longo ano de mediação, eu já nem me intrometo.
“Fala com o mano, cheguem a um acordo”.
E eles já fazem um acordo entre si. Por norma, o seu tempo de duração é uma mão cheia.
“Eu so vou bincar isto (mão cheia) e depois dou a ti, sim?”

Já vi um deles tentar entrar em acordo com uma menina sobre quantas voltas no triciclo ela daria, antes de lhe emprestar a ele.
A menina não sabia destes acordos e ia-lhe passando por cima 🙂
Ainda assim, mesmo que o acordo ainda não seja uma moeda de troca muito fluente entre os pares deles, eu acho importante que eles saibam praticar esta atitude tão importante nas relações humanas.
Saber reivindicar os seus direitos enquanto se tenta respeitar os direitos dos outros. Aprender a fazer cedências. Entrar em acordo.

Quanta diplomacia deste género está em falta em muitos governos no nosso globo…?

A educação é sem dúvida uma experiência laboratorial… eu, definitivamente, não sei o que está certo ou errado. Só faço o meu melhor. E espero que estas dicas vos ajudem, em alguma altura mais conturbada.

Que plantemos amor!

Hoje é dia da raiva.
Que estranheza existirem estes dias de celebração de coisas que não interessam.
E no entanto, isso leva-me a pensar no seu oposto.
A calma.
Eu que já acalentei propositadamente mágoas que descambaram num cultivo impróprio de raivas no meu peito, hoje, busco acima de tudo… calma.
Hoje, como esposa, como profissional e sobretudo, como mãe, vejo a calma como um superpoder.
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Os meus filhos não vão à creche. Sou mãe a tempo inteiro, revezando-me o melhor possível com o pai e quase sem família por perto para ajudar.
Com uma quinta por cuidar e pelo menos duas profissões para realizar… não é fácil.
Tenho dois miúdos de 3 anitos acabados de fazer, que trepam tudo o que seja vertical (ou mesmo diagonal e periclitante), cujas brincadeiras predilectas são água (não importa de que fonte e para que fim) e espalhar brinquedos (os poucos que têm) pelas várias divisões da casa.
E enfim, são dois irmãos da mesma idade, e tão depressa estão a planear conjuntamente a próxima traquinice, e a rir desalmadamente um com o outro, como qualquer pequeno pretexto serve para implicância e consequente choro, (diria… berreiro), e até agressões.
Tenho dois miúdos que são ávidos de descoberta e que, face à ainda normal dificuldade em aceitar nãos, revelam os seus mais agudos e temíveis gritos, e os desoladores beicinhos de discordância.
Tenho dois miúdos que se zangam e que se enervam.
E o que sei é que a experiência me tem mostrado que a calma é um superpoder.
Eu tenho um semblante relativamente calmo, uma voz baixinha e muitas ferramentas para saber lidar com todas as dificuldades de ser mãe.
Mas… nao sou de ferro.
E não são tão raras as vezes quantas gostaria, em que um grita e eu elevo também a voz. Em que descambo para a chantagem em ralhete: “se não páras, acontece isto ou perdes aquilo…”
Mas sou consciente. Quando faço coisas de que me não orgulho, recrimino-me, se achar que é válido peço desculpa e sobretudo tento de imediato voltar ao caminho que tracei para a educação deles (e minha reeducação).
Mas ainda assim, estes momentos ocasionais, são um bom exemplo de como a raiva, os nervos, o stress e o fraco discernimento são uma espiral.
Se eu ralhar com a voz mais alterada, os meus filhos respondem-me aos gritos, a roçar a má-educação.
Se eu respirar antes de me alterar (inspirar e expirar ajuda a acalmar), se me ajoelhar perto deles, se falar baixo e docemente, se aplicar a entreajuda… bolas, como o resultado é magnífico.
“Estás zangado? Eu percebo. Precisas de te acalmar, para conseguires pensar como deve ser e resolver esse problema. Precisas da minha ajuda?”
E é ver as suas carinhas até aí mascaradas com o biquinho de mau e os olhos zangados, a desabarem por completo.
Quantas vezes, em momentos de fúria, também nós só precisamos de alguém que nos diga: “Eu compreendo-te. Precisas de ajuda?”
Quantas vezes um abraço de alguém é suficiente para conseguirmos restabelecer o juízo e agir com nexo?
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No caso deles, crianças ainda puras dos moldes da sociedade, é ainda mais notório. E não quer dizer que resulte em 100% das birras que fazem, mas resulta seguramente em 90% de forma mais ou menos rápida.
O facto de me manter calma, apesar de a situação me pôr a fervilhar por dentro, resolve o assunto tão mais eficientemente do que se eu me puser a gritar mais do que eles.
É certo que tenho de parar o que estou a fazer, é certo que me leva ali 5 ou 10 minutos de colinho e abraços e conversa, exactamente no momento em que tinha de enviar o e-mail urgente ou pôr o jantar ao lume… mas mal esse tempo acaba, os meus filhos são outros. Dispõem-se a fazer exactamente aquilo que não queriam e que originou a birra, sentem-se tranquilos e, mais importante do que tudo, sinto que a sua confiança em si próprios e em mim cresce notoriamente.
Um dos ensinamentos que mais me orgulho de lhes passar e aprender com eles, é que somos nós quem controla as nossas birras, os nossos nervos, as nossas frustrações…
“Estou muito zangada” – digo-lhes às vezes, depois do primeiro grito, à visão de uma qualquer colcha pintada a caneta de feltro – “preciso de respirar para me acalmar”.
Eu sou o exemplo. Eu assumo as minhas fraquezas e corrijo-me em frente a eles.
Não preciso que me achem perfeita. Preciso que saibam que faço o melhor para ser boa mãe e que isso as vezes significa perceber que estou errada ou que ainda não sei tudo.
Por norma, sentam-se comigo a respirar também. Por vezes abraçam-me ou fazem-me festinhas. “Já tás feliz, mãe?”
“Já acalmei, sim. Podemos falar?”
E a verdade é que falado, em vez de ralhado, se tem revelado muito mais eficiente para que não volte a acontecer.
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Imaginem o que seria as pessoas conseguirem escutar-se umas às outras em vez de entrar em espirais de discussões.
Imaginem o que seria crescermos todos assim e isto dar realmente resultado. Imaginem o que seria as nações respirarem e conversarem antes de decidirem entrar em mais uma absurda e dramática guerra…
Hoje, no dia da raiva, penso, constato e sei que a calma é um superpoder.