Vegetarianismo

Carta aos meus filhos, sobre a nossa alimentação 100% vegetariana.

Meus amores

Esta história que a mãe vai contar, começou de forma muito simples. Era uma vez uma menina que não queria comer animais. Simples assim.
Desde criança, a Mãe nunca conseguiu comer pato, nem coelho, nem leitão. Depois numa tarde normalíssima, aos 21 anos, deparei-me com uma banca de uma associação chamada Animal, coleccionei os panfletos que mostravam a realidade da indústria, fiz as minhas perguntas e ao jantar já não comi carne. Nunca mais.
Demorei 3 meses a deixar o peixe e infelizmente por ser utópica e obtusa, mais 15 anos a deixar os lacticínios.
Casei com o vosso pai, que não sabia o que eram legumes e quase só comia bifes e batatas fritas.
A primeira vez que a mãe lhe pos um prato vegetariano à frente, o pai torceu-se todo.
Vocês ainda não têm muita consciência disso, mas alguns primos vossos (que vocês nao conhecem) são toureiros e forcados, o pai vem de uma família tauromáquica, mas eu conheci-o com uma sensibilidade e um coração que bastou ver algumas imagens, saber algumas histórias, pensar por ele… que em 1 ano ultrapassou todas as convenções em que a sociedade o cultivou, e hoje é ainda mais cuidadoso com os direitos dos animais do que eu.

Por último, quando vocês nasceram, foi por mútuo acordo que embora bebés, iriam seguir uma alimentação vegetariana desde a gestação!
Para muita gente há várias preocupações nesta opção que fiz para vós, e já me originou várias mensagens nas redes sociais.
A maior parte sem descriminação, apenas por desconhecimento de que possa ser saudável.
Talvez no futuro, vocês próprios me perguntem porque foram criados assim…
É por isso que hoje, é este o meu assunto.
Tenho 2 filhos bebés, que seguem uma alimentação vegetariana!

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Foto: Patrícia Resende

E vou tentar resumir por pontos todas as perguntas e respostas que já dei.

1) “O que comem eles afinal? E a proteína?”
Claro que vocês sabem que comem tudo. Literalmente tudo e muito bem. Só não comem carne, nem peixe, nem lacticínios (leite de vaca, queijos, manteigas), nem ovos.
E digo só, porque só desde que sou vegetariana, é que me apercebi do mundo gigante de alimentos que existem para além da habitual alimentação omnívora.
Mas para quem não sabe, costumo enumerar:
– Comem legumes (que para além das recorrentes courgette ou bróculos, incluem beterraba, pastinaca, raiz de aipo, funcho, quiabos, couve kale, beldroegas, acelgas, etc…),
– Comem tubérculos (que para além das batatas incluem mandioca, chuchu ou ínhame),
– Comem cereais (que para além da massa e do arroz, incluem quinoa, bulgur, millet, kamut, trigo sarraceno, amaranto…),
– Comem muita fruta​, fresca e desidratada,
– Comem leguminosas (que para além das ervilhas ou grão, incluem as favas e as lentilhas e as dezenas de feijões todos como mungo ou azuki)
– Comem algas, sementes várias, leveduras e óleos naturais
– Bebem leites vegetais variadíssimos e comem queijos e manteigas de amêndoa, noz ou caju…
Não precisam de “substitutos” da carne. Por graça, comem só de vez em quando tofu, seitan ou tempeh, mas longe, muito longe de ser diariamente.
Uma alimentação vegetariana variada e naturalmente colorida tem todos os nutrientes necessários para a nossa vida, incluindo no crescimento, incluindo a proteína, sim.

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Foto: Liana

2) “Não os deixas escolher, estás a fazer a opção por eles”
Bom, eu não conheço nenhum pai, mas mesmo nenhum, que tenha perguntado à sua criança se ela optava por ser “carnívora”.
Os pais escolhem sempre a alimentação dos filhos, segundo a sua cultura, a sua religião, os seus costumes, os seus hábitos. Esta é uma das coisas nas quais as crianças não têm opção.
Mas creio, e penso ser fácil crer nisto, que se perguntassem realmente às crianças se elas queriam comer o patinho, o coelhinho, a vaquinha, o porquinho…que provavelmente muitas delas iam responder que não. Ensinamos os nossos filhos a gostar destes animaizinhos todos, heróis das histórias lindas dos livros e dos filmes, mas quantos de nós têm coragem para dizer que o que está no prato, o que eles têm de comer, é a perna do coelhinho ou a asa do patinho? Não será isso uma contradição?
Orgulho-me de que vocês saibam de onde vem toda a vossa comida, não há nada a esconder no que vem da horta e não do matadouro. Nada traumatizante ou contraditório na vossa comida.
Quando vocês tiverem maturidade suficiente para saber que as vossas escolhas alimentares têm consequências não só para vós, mas para os outros seres, e para o todo o mundo à vossa volta, já que a indústria da carne é a que causa mais emissoes de CO2, então aí estarão capazes de optar. E tenho consciência que posso criar um activista e um caçador de leões.
Ser vegetariano estrito, é muito mais do que deixar de comer animais, é uma filosofia que exclui o abuso de animais em qualquer circunstância. É um estilo de vida de compaixão, respeito e amor. Só quando crescerem, vocês poderão decidir se querem, ou não, ser realmente vegetarianos. Mas enquanto vocês não têm capacidade de optar, faço como todos, todos os pais: opto pelo que eu acho melhor para vós.

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Foto: António Dias

3) “Vão ser descriminados”
Os meus filhos não comem açúcar e isto não tem nada a ver com ser vegetariano. Eu farto-me de comer açúcar, porque é um vício, mas vocês não comem açúcar porque o açúcar é um veneno e não precisam de se habituar a um veneno. Para já o que vocês adoram as minhas papas caseiras adoçadas com fruta, os meus bolos adoçados com tâmaras e bananas. Sabem o que são doces, mas não sabem o que são gomas, nem chocolates kinder, nem refrigerantes. Só nas festas comem mais ou menos os mesmos bolos e bolachas que os outros meninos.
E sabem que mais? Neste tempo em que vivemos, acredito que se vocês vierem a ser descriminados pelos colegas, seja muito mais por não comerem açúcar do que por não comerem carne.
E então? Eu vou “envenenar” os meus filhos com açúcar para não serem descriminados?
O mesmo serve para não comer animais. Eu vou dar-vos carnes cheias de antibióticos e hormonas, esquecer todo o respeito pelos animais, para vocês não serem descriminados?
Para mim, a resposta é clara. Não. O que eu vou tentar fazer é encher-vos de amor, educação, valores, sentimento de pertença, fomentar a vossa auto-estima e dar toda a informação sobre as escolhas da família, para que tenham a bagagem correcta para não se intimidarem com a descriminação.

Sabem que a Mãe foi vítima de bullying durante vários anos da minha infância? E não era vegetariana…
Era pobre, era fadista, era filha de pais separados… Mas não era vegetariana… Quando o mundo nos encontra um ponto fraco, seja ele qual for, às vezes diverte-se a atirá-lo ainda com mais força para cima de nós. A mim, entristeceu-me e enrijeceu-me. Espero muito conseguir tornar-vos fortes através do amor e não da dor.

4) “Vão ter problemas de saúde”
Aqui eu não respondo com as minhas palavras, quando me posso valer de quem sabe muito mais do que eu.
Os últimos manuais da Direcção Geral de Saúde incluem manuais sobre alimentação vegetariana na infância e referem os benefícios de saúde em relação a uma alimentação omnívora.
Ainda assim, pelos vossos problemas cardíacos, e por descanso meu, são seguidos pela nutricionista do Hospital de Santa Cruz (que não é vegetariana e nos recebeu na primeira consulta, de sobrolho franzido, à espera de uma mãe a seguir uma moda).
Dela, recebo agora várias vezes os parabéns e a frase: “os seus filhos são mais bem alimentados que a maioria dos bebés omnívoros que eu acompanho”
As vossas análises estão óptimas e recomendam-se.
Não há nada, nada, na carne, peixe ou lacticínios que não possam obter em fontes vegetais.

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Foto: Liana

 

Se tive dúvidas? Claro que sim.
Quando tive o primeiro diagnóstico pré-Natal de que tu, Gabriel, tinhas uma cardiopatia a minha primeira pergunta foi: “A culpa é minha? Foi da minha alimentação?”
Quando, depois de toda a tua atribulada história de cirurgias cardíacas, voltaste a ser internado com vómitos constantes, a recusar comer durante 15 dias, a minha primeira pergunta foi: “Será que lhe falta alguma vitamina? Será que precisa de carne ou peixe?”
Mas os médicos sempre disseram que não.
Infelizmente para nós, por ambos terem sido operados várias vezes ao coração, são inúmeras as equipas médicas e de enfermagem, que vos acompanham.
E felizmente, longe do que eu inicialmente contava, literalmente todas, tem dado apoio na continuação da alimentação vegetariana.
Todas têm reforçado os seus benefícios. Hospital S. Francisco Xavier, Hospital de Santa Maria, Hospital de Santa Cruz, Hospital Beatriz Ângelo…
Foram várias as vezes que nos primeiros internamentos, foram chamadas nutricionistas para falar comigo, por acharem que vocês podiam ser crianças em risco de má nutrição. Lembro-me por ex. de uma, que após me ouvir, me disse, fechando o dossier: “ok, não faço aqui nada. Estes rapazes são muito bem alimentados.”

A minha opção para vocês foi pensada e muito consciente.
Antes de vocês nascerem, eu já era vegetariana há 15 anos. Comia sem grandes cuidados e era uma má cozinheira, apesar de muito boa vontade, e mesmo assim, sempre saudável.
Quando optámos por vocês terem uma alimentação vegetariana, a responsabilidade foi totalmente diferente. Se adoecessem por minha causa, estaria a ser uma terrível e negligente mãe. Por isso, como em tudo o que faço, por vós, que seja de grande magnitude, investiguei muito. Para além das nutricionistas, li muito, juntei-me a grupos vegetarianos e aprendi.
Tornei-me uma cozinheira infalível (a necessidade aguça mesmo o engenho) e tenho um enorme orgulho em vos ouvir a pedirem sopa, feijão e couves em vez de batatas fritas e nuggets.

Por isso, se podemos ser saudáveis (e sim, já há estudos dos efeitos a longo prazo) e respeitar a Natureza, o planeta, o ambiente e os outros seres, porque razão haveria eu de fazer outra escolha para os meus filhos?

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Foto: Liana

Que continuemos juntos a plantar amor
Vossa
Mãe